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Ele chorava rios [rindo dentro do rio] de lágrimas –, riso sem graça, graça sem alma. Seu riso chorava as lágrimas que nunca escorriam dos olhos : seu riso corria das suas próprias dores. Sorria, porém só ria sem sorrir verdade. Dentro carregava um coração comungado de pesos [batendo num ritmo denso. Doente de ser metade, sem direito a se acontece inteiro. Iterando o amor relutante no peito.
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Ele chorava rios, e rindo de tanto chorar soube ser riacho alegre –, disfarçando curvas e relevos muitos da tristeza do próprio reflexo : entrelinhas da vida sem avidez para dores breves. Eternizando feridas incuráveis no breu intrínseco. Porém, ia doído caminhando dores adentro. Quanto mais chorava, ria. Rindo corria rio afora. Escorrendo lágrimas soube ser vento. Leve como sopro tempestuoso do tempo descompassado. Inventando a outro a leveza imprópria de si.
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Menino nascera intenso demais para não ser denso. Livre demais para não ser preso [aos medos. Certo demais para não ser pura incerteza. Incerto menino sempre cambaleou sobre os próprios pés. Cambaio das pernas e das próprias penas seguia às duras penas. De certo aos outros soube ser equilíbrio –, estrada assegurada dos prazeres absolutos [sem dúvida alguma : sem tristezas nem amarguras : sem acidez nem azedumes, mas risos. Rios de plena doçura. Rios de ventos macios na alma. Rios de amores amados e amáveis. Rios de luzes a luzir os olhos. Rios de correntes contrárias.

Escrito por Nayara Fernandes

Nayara Fernandes (Teresina - PI, 1988) é escritora e poeta brasileira. Autora do livro “Asas de pedra” (Selo Edith, 2017). Tem poemas publicados em diversas revistas literárias no Brasil como Alagunas, Mallarmargens, Acrobata, Germina, Diversos Afins, Escritoras Suicidas e The São Paulo Times. Além dos sites LiteraturaBR e Livre Opinião - ideias em debate. Participou da coletânea Quebras - uma viagem literária pelo Brasil (Selo Edith , 2015). Ousada, sistemática e inquieta escreve em "Eu tenho asas de pedra" nayarafernandes.wordpress.com.