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Hilda: a Boca que Pronuncia o Mundo

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Hilda Hilst (1930 – 2004) como o nunca. Ávida homenageada do principal evento literário brasileiro, a Flip – Festa Literária Internacional de Paraty,  Hilda pousa sobre os nossos cancros e melismas. De 25 a 29 de julho, a literatura brasileira, finalmente, se rende inteira ao seu corpo e tom. Hoje, oficialmente, a Flip começa! E eu ainda estarei lá, pensando tanto e em tanta gente. Ensaiando um desfecho sem cruas razões. Emocionada, penetro o seu longo percurso até aqui, no ponto em que Hilda e sua Casa do Sol são agora mais abastadas, em Campinas e na festa literária.

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Anne Sexton (1928 – 1974) dizia “Tudo em mim é um pássaro”. Para Hilda ”Pássaro-Poesia”. Como Sor Juana Inés de la Cruz (1651 – 1695), a poeta fincava sua voz para o futuro: “só sei que meu corpo, / sem que a um ou outro se incline é neutro, ou abstrato”. Hilst e o peso do mundo no inominável, ou MORTE que é VIDA, literalmente se abstêm de estereótipos. Obra que emerge, imensa, em número e qualidade. Por dias o obsceno será na Flip ainda mais transcendental. Esperamos, afoitos, por mais arte-e-emancipação: humanidade. Escritora, poeta, dramaturga, cronista: HH. Avançando em Sylvia Plath (1932 – 1963) “As vogais claras sobem como balões”. Nosso saturno (em capricórnio) diz que eu e ela temos disciplina, solidez, tato, e somos intolerantes, implacáveis. Será? Agridoces, não sendo também o oco que abastece o todo.

Na festa lançarei o meu terceiro livro de poesia, projeto que foi semeado de nossas ideias filosóficas tão similares – é difícil explicar. Tríptico Vital é uma morte assombrada, e uma homenagem (in)diretíssima para ela. Que seja impresso para nosso anseio&receio da morte! Afinal, o que será do que não foi-e-será? Assim começa Ernest Becker (1924 – 1974) em seu livro A Negação da Morte (1973): “De todas as coisas que movem o ser humano, a mais forte e determinante é o medo da morte”. Penso agora no escritor Victor Heringer (1988 – 2018), que partiu dia 7 de março, quando eu ainda terminava de escrever um livro que se encontra em estado mórbido. Sua partida atravessou o final do meu livro de forma abrupta – atravessando o meu próprio medo da morte mais de perto, o meu receio que virou lástima tão profunda. O som o sonho o só. Criei então o meu epitáfio, que em seguida se fincou no livro. Vivi os últimos meses como Alexandra Stréliski indaga em seu vídeo Plus tôt (2018): “Você é parte do universo ou o universo é parte de você?” Mas como saberemos ancorar o ontem no amanhã? Ana Cristina Cesar (1952 – 1983), que também partiu de um sopro absurdo, dizia “é sempre mais difícil ancorar um navio no espaço”. Concordo.

A Flip 2018 começou, enfim, no Brasil, mas começou também em Marduk (onde Hilda dizia que iria viver após morrer), acho que começou continentalíssima! Clarice Lispector (1920 – 1977) e Franz Kafka (1883 – 1924) foram chamados por Hilda num método nominado transcomunicação instrumental“Clarice (…) Kafka (…) Vocês podem me escutar?”. Todos, cedo ou tarde, pedem contato. Por mais isolados que pareçamos. A palavra nasce do absurdo. Hilda Hilst armazenou esses reflexos como ninguém.

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O absurdo: o que somos. Os “seres descontínuos”, nos quais Georges Bataille (1897 – 1962) insistia: “temos a nostalgia da continuidade perdida”. Cedo ou tarde. O ato da literatura rói os tesouros perdidos, como animais flutuantes, pedregulhos recheados de surpresas. Assim, caminharemos por Paraty. Paraty, nunca em nós. Cedo ou tarde. Hilda pronunciava o mundo. Nós, partimos e voltamos nele, sedentos. Como Pieter Bruegel (1526/1530 – 1569) na pintura O Velho. Escancarados na potência cotidiana.

É como se o céu pedisse, além-Hilda: “Ama-me, é tempo ainda”.

[Imagens: Fernando Lemos©]

 

Escrito por Mariana Basílio

Mariana Basílio (Bauru - SP, 1989) é uma escritora, poeta, e tradutora brasileira. Autora de Nepente (Giostri, 2015) e Sombras & Luzes (Penalux, 2016). Dedica-se à área literária desde 2014. Traduzindo diversos autores americanos e latino-americanos, entre eles, Alejandra Pizarnik, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Emily Dickinson, May Swenson, Silvina OCampo e Williams Carlos Williams. É colaboradora de portais nacionais e internacionais, escrevendo também ensaios. Tem poemas, entrevistas e traduções em diversas revistas nacionais e internacionais. É vencedora do prêmio ProAC 32/2017 do Governo de São Paulo pelo seu terceiro livro de poesia, Tríptico Vital (Patuá, prelo, 2018), dedicado à escritora e poeta, Hilda Hilst. Site para contato: www.marianabasilio.com.br
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