Ei você da academia que não gira nem ajeita o cabelo com o garfo, cuidado: nas ruas, o novo livro de Walner Danziger. E vem assim, embrulhadinho em papel de peixe.

Pela primeira vez seus versos armados, bons mesmo de amolar faca, vão ganhar materialidade, e o autor não poderia nos dar presente maior. Contista, romancista e dramaturgo, Walner Danziger é velho conhecido das quebradas, becos e saraus paulistanos, mas até hoje seus poemas não haviam entrado no bom e velho formato de livro. E virá da forma mais marginal possível, compacto e sem frescura, por seu próprio selo incendiário, cru como uma mensagem secreta passada de mão em mão pela malandragem, necessário como uma pipa que desbica no céu para denunciar a chegada dos milicos. Vem assim, vivo e desconfiado, repleto de sangue e libido, salvando a si próprio de morrer de asfixia na prateleira.

Ivetes que se juntam a Marielles, profetas e arautos consagrados da Cracolândia. Malungos de biroscas e vielas entrelaçados num abraço apaixonadamente trágico, os versos de Walner Danziger são vãos ocupando a máquina do mundo periférico, furando os muros da burocracia, do mercado, da vida burra e besta que dominam nossas vidas pálidas e brochas. Como uma taz de Hakim Bey, cerol da geral, flauta de Pã, Quixote, Exu que guarda a própria porteira e reinventa encruzilhadas.

Despido de qualquer verniz ou alvejante, o livro é uma granada, recado reto nas ideias de quem não usa Black Power – essa gente inquisidora de pau mole. Só morto não luta e aceita cova rasa como moradia, diz um de seus versos.

E durma com esse barulho.

Mas, para além de rondas, o livro é também aos amantes noturnos do centro, papel bom de embrulhar amores com cheiro gostoso de suor e orgasmos que transbordam os poros da Cidade Cinza. Respondendo ao poema que cita Glauco Matoso, confesso: com sua escrita tesuda não tem jeito, é pau em riste tocando o umbigo – sempre! Também é papel de batuque, Bixiga com seus sambas em erupção. Samba pornô. Tesão com duas doses de veneno sobre o balcão. É, sobretudo, um livro que se arma no desarme e vem lembrar que não, meus irmãos, nenhum amor é impossível.

(Willian Delarte)

 

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Livro: Papel de Embrulhar Peixe
Gênero: Poesia
Autor: Walner Danziger
Editora: Edições Incendiárias
Lançamento: 09/08/2018 – 20:30hs
Local: Sarau Elo da Corrente
(Bar do Santista – Rua Jurubim, 788 – Pirituba)

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Escrito por Willian Delarte

Escritor brasileiro. Autor dos livros "Sentimento do Fim do Mundo" (poesia), "Cravos da Noite" (contos) e "O Alien da Linha Azul" (poesia). Tem publicações em diversas mídias e antologias. Foi co-editor da revista REBOSTEIO Digital.