se você fuma seus cigarros
debaixo da chuva amena
acha ainda que os anéis de
saturno convocam algum terror escute
há espinhos até mesmo nas rosas abertas O
silêncio das noites maiores
têm recebido há milênios
o plúmbeo ácido das gotas insulares
As flores falam quando há tato e
se não há tato
só resta o facto inverossímil das letras
documentadas nos anéis dos maridos ou nas certidões
de que nascemos para um mundo que se desgasta
cada tiro mirando o Coração
músculo inapto ao acordo das Horas
,

ainda antevendo a tempestade
maria madalena usava apenas um lenço roxo
ana cristina rolos dos filmes mal rodados
nathalia a cidade Roma fundada
pelo soldado
,

se você pensa que as cartas legalizam o selo
ou que o diabo nunca trovejou nas pequenas flautas paridas na alvenaria
Mais ainda
que o grande lago referencia apenas a loucura do Cisne e
o óleo em Caravaggio recorda ínfimo as
falésias do absurdo
Aprenda
Há espelhos que não embaçam à triste baforada e por aí just around
baby persistem estilhaços
irreconciliáveis na unidade estremecida
                           ,
almas seladas no metal vagueiam
séculos-ante-séculos
filosofias deslumbradas pelo acaso
uma estrela decai no manto da virgem
um touro atravessa a bandeira
um tolo queima abrilhantada a carcaça de Joana
imagens para anunciar manchetes invisíveis na estrada o
polifônico acorde tecido em contratempo –
o Corpo como a
dúvida jamais nascem insignes
,
Nunca aos homens
nossas Mulheres Atena Etiópia Andaluzia
escrevem seus poemas para cantar aos filhos
cataventos vagalumes uma
notícia deixada no abismo A lesa vida
soletrada no chiado das feridas
também para desclassificar o ouro no
calabouço da Imagem sondar
inevitável o gozo das hipóteses
outras tantas Escrevem apenas para sublinhar seu sexo
na terra não vista
e ao fim de cada tempestade recolher a brasa
esquecida pela chuva

Escrito por Isa Rossi

Isa Rossi (Brasil, 1993). Licenciada em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e aluna da Escola de Arte Dramática da USP, é atriz e autora na Companhia Balé de Pancadaria, grupo de criação e experimentação de linguagem no teatro. Quando nasceu tomou de assalto os versos do poeta Paulo Leminski "não discuto/ com o destino/ o que pintar/ eu assino" e assim, com pólvora e poesia, tem seguido desde então.