Quero viver meu cercado de destroços feito fosse, sei lá, um playground. Unir, colar, empilhar essa tralha toda, depois chutar, forjando um desmoronamento enquanto meu corpo, forte, dá gargalhadas e dança, nu, buscando perfumes na vegetação, os dedos sujos e o cabelo enfeitado, roçando em texturas similares, diferentes, curiosas. E coisa em que mergulhar e levantar as mãos alegres cheias de líquidos. Água e brilho. Comer é importante. Acho, sou, pareço? cruel, muito mais que suicida. No centro de Manaus tem mendigos que brincam de tomar banho nas poças.

Tenho repensado as poças, veja como parece que funcionam: perto do mar e da grama, elas ficam lindas, no escuro, refletindo a luz, dos dias, dos postes, ainda mais se tiver chovendo, como o dia em que cheguei aqui em Florianópolis. Se demoram a evaporar, criam musgos que se desprendem e ficam boiando, parecendo pequenas rugas verdes. O meu desejo era que elas nascessem e evaporassem constantemente, mas e os musgos, né?

Mas e não é tudo isso mesmo que acontece?

Algumas poças nunca veem luz direta, parecem segredos compartilhados entre pedras, areia, barro. Abrigam as mais diversas formas de vida e morte.

Ainda não sei muito bem o que dizer das poças de asfalto. Brilham, né. Mas sigo acreditando que, pelo menos essa, não é amor. Ou, sim, né, uma estapafúrdia forma de amor.

Piscinas e banheiras: terei vontade de pensar esses objetos? Acho meio tristes, mas gosto delas.

Mas também tem o vento, o mar, o rio, as árvores…

O amor atravessa

Parece que tô dando voltas num igarapé delicioso. Ou serei um musguinho boiando?

Peguei uma mania engraçada de gostar do meu cecê. Não o de todo mundo, só o meu mesmo. Depois que comecei a tentar decifrar aquele cheiro misturado com óleos de frutas, madeiras, achei que parecia, assim, uma flor exótica. Às vezes, no ônibus, quando volto sentada, enfio a cara dentro da minha camisa e sorrio. Experimentos com o sovaco: outra lição da velhinha pornógrafa. Até quando olho meu sovaco agora lembro de Hilda Hilst, vê se pode? Mas bom também é aquele de quando eu passo o dia paradinha, pensando, esquecida dos perfumes.

Aqui do mirante do memorial, os sons do largo parecem se tornar uma coisa só, envolvida por uma bolha que os distancia de nós, os suspensos. As pessoas lá de baixo, pequenininhas, sem rosto, por causa da minha miopia, ao mesmo tempo em que não me dão a mínima, me causam cerrrto arrr de superioridade. Tem vezes que fico assim no chão, mas as coisas se invertem: olho as pessoas e sinto que não consigo alcançá-las, fico um nojo. Tem vezes que acho isso um talento. Porém meio irritante.

Aconteceu de eu ter pensamentos acabados sobre a natureza e ela fazer justo o contrário logo depois, exemplo: pensei “como os pássaros do centro são silenciosos e um bando passou GRRRRRR GRRRRRRR GRRRRRIS depois outro ou:

Três bolhas de sabão alcançam a minha altura e somem no ar.

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, artista visual, curadora. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo. Hoje, vive em Curitiba (Paraná).