“Pensamentos supérfluos coisas que desaprendi com o mundo” é o livro de estreia de Evanilton Gonçalves.  Engana-se quem cogitar algo supérfluo no volume que guarda concisão e precisão às vezes cirúrgica. A seguir, nossa conversa sobre o livro e sobre a literatura brasileira contemporânea.

 

Identitariamente falando, quem é Evanilton Gonçalves? De onde fala o escritor Evanilton Gonçalves?

Sou um homem negro que escreve literatura. Cresci no bairro de São Caetano e atualmente resido no bairro da Liberdade. Ser negro, baiano, pobre e me lançar no universo literário enquanto escritor implica no reconhecimento político desse lugar que resolvi ocupar. Sou formado em Letras pela UFBA e Mestre em Língua e Cultura também pela mesa instituição. Para obter esse nível de instrução, o caminho foi longo. Já fui atendente de Lan House, Técnico em Manutenção de microcomputadores e vendedor em uma loja de suprimentos de informática em um shopping da cidade. Atualmente trabalho como revisor de texto freelancer e desenvolvo alguns projetos com grafiteiros e grafiteiras de Salvador. Todo esse percurso ecoa quando eu falo ou escrevo.

Seu livro “Pensamentos supérfluos coisas que desaprendi com o mundo” traz uma prosa leve, ágil, concisa. Às vezes, parece que estamos lendo poemas dada a precisão e o impacto gerado. Como foi escrever esse livro? Você pensou nas fronteiras entre os gêneros literários?

Eu comecei a escrever esse livro em 2014 e dei continuidade ao longo de 2015. Em 2016 o livro foi lido por pessoas de minha confiança, que não diriam que o livro era bom se o julgassem ruim, então, com os feedbacks, eu tive a certeza de que este projeto estava concluído, porque eu queria isso: ter produzido algo de qualidade. E, mesmo sabendo das relatividades dos julgamentos, acho que consegui produzir algo relevante. A princípio, me importava ter a consciência de que finalizei o projeto de um bom livro, o que não implicava necessariamente em publicação. Mas a oportunidade de publicação surgiu em 2017, porque Milena Britto, que é uma pessoa séria no meio literário e que foi minha professora na UFBA em 2010, já havia lido meu original e resolveu apostar no livro pela qualidade que julgou encontrar. Todo esse relato é para dizer primeiro que não tinha pressa em publicar. Escrevi e escrevo num ritmo particular, entre as lacunas dos compromissos. Segundo, para dizer que, embora o livro seja fininho e os textos pequenos, a ideia foi trabalhar justamente a prosa em seus mínimos detalhes, talvez por isso você enxergue essa leveza, agilidade e concisão nesses textos. Valorizo muito o trabalho de leitura, escrita e reescrita. A respeito das fronteiras entre os gêneros, penso que a literatura contemporânea pode e deve romper com as fórmulas e os modelos. Mas não pensei muito nisso enquanto produzia esse livro, só tinha em mente que queria produzir um livro de prosa e que as possibilidades de criação são gigantescas. E essa percepção se deu ao ler autores como Daniil Kharms, Lydia Davis, Conceição Evaristo, entre outros. Vi neles formas irreverentes de narrar a banalidade cotidiana e ironias inteligentes. Escrevi para promover o diálogo com esses autores, mas também com muitos outros que compartilham esse tempo histórico comigo.

A leitura do livro às vezes fez-me lembrar d’O livro do desassossego de Fernando Pessoa, ou dos poemas em prosa de Baudelaire. Quais são as suas influências artísticas?

De fato, esse livro busca dialogar com esses e muitos outros autores. Acho que escrever é dialogar, sempre. Costumo tentar ler de tudo um pouco e acho que, por isso, tudo que leio de alguma maneira me influencia, tanto nos meus modos de estar no mundo quanto na literatura que produzo. Minhas influências artísticas são diversas. Sempre gostei de apreciar a arte em suas muitas linguagens. As artes visuais, o cinema, a música, enfim, tudo que consigo captar a é incorporado aos textos e serve de motor a essa ficção que produzi. A literatura não é alimentada somente pela literatura.

É marcante a presença da cidade ao longo do livro. Você se considera um flâneur contemporâneo da urbe soteropolitana?

Sim, a cidade é marcante e isso foi algo proposital. Queria que a cidade fosse também personagem do livro e não apenas um cenário de fundo. Não me considero um flâneur contemporâneo. Comecei a perceber a cidade de outras formas a partir de minha pesquisa sobre o graffiti soteropolitano. Foi a partir da leitura dos muros que comecei a ler melhor a cidade e passei a querer elaborar uma outra narrativa ficcional possível. Fui me dando conta de que olhar a cidade de dentro do ônibus é diferente de olhar a cidade de dentro de um carro ou de olhar a cidade caminhado por lugares que as pessoas costumam evitar. Salvador é uma cidade linda e hostil com seu próprio povo. Acho que as andanças e a produção desse livro serviram para reforçar uma convicção, precisamos lutar pelo direito à cidade.

Você também atua como crítico literário. Como se relacionam o escritor e o crítico dentro de você?

Na verdade, essa é uma influência direta do professor Antonio Marcos Pereira, que é um crítico literário que admiro, foi meu orientador na graduação e se tornou meu amigo. Foi a partir do contato com ele em 2011/2012 que comecei a refletir mais sistematicamente sobre o que eu lia e como eu lia. A ele devo também a leitura de excelentes livros, pois é o maior incentivador da leitura que conheço e quem mais me deu livros de presente nessa vida. Então, essa tentativa de assumir uma identidade de crítico literário tem mais a ver com querer ser parecido com quem a gente admira. Não sou um crítico profissional, já que não vivo produzindo críticas regularmente. Mas sempre que tenho vontade ou surge oportunidade, procuro produzir críticas literárias. Sou escritor. Ser crítico literário, e acho que todos que leem o são em alguma medida, serve, no meu ofício, para ler melhor tudo que chega em minhas mãos, ler tentando entender porque sinto o que sinto enquanto leio algo, porque algo me agrada ou não. E esse exercício serve para que eu me aproxime da literatura que me agrada e tente evitar “os erros” dos textos que não me tocam.

“Pensamentos supérfluos coisas que desaprendi com o mundo” é seu livro de estreia, publicado por uma editora baiana. Como você os caminhos de publicação na Bahia?

Foi importante publicar meu primeiro livro por uma editora baiana. Mas é preciso dizer também que é difícil para um escritor principiante conseguir publicar em editoras grandes, que parecem buscar cada vez mais retorno financeiro certo e imediato. Se tratando de um escritor negro nordestino então, as dificuldades se tornam ainda maiores (basta olhar os catálogos das grandes editoras para entender o que estou falando). Em segundo lugar, houve muita coisa bacana que possibilitou a edição do livro pelo selo: a livreira e poeta Sarah convidou Milena Brito para realizar a coordenação editorial dessa expansão da livraria Boto-cor-de-rosa, e Milena Brito já havia lido meu original e resolveu apostar no livro. Desse modo, a publicação foi construída de forma coletiva, organicamente, cada um fazendo algo.

Não tenho muito conhecimento sobre o mercado editorial da Bahia. Mas, pensando num cenário macro, tenho percebido transformações, com o surgimento cada vez maior de editoras independentes, alternativas, que primam pela qualidade literária e inovam com a diversidade de autores. Diferente do “grande mercado”, que sempre se mostrou bastante fechado e atualmente parece ter mudado pouco. Os novos escritores precisam se conectar a essas vias alternativas ou simplesmente vão padecer e hoje os leitores têm uma possibilidade maior de acesso à leitura, seja impressa ou digital. Acho isso muito bom. Não sou do grupo pessimista que acredita que as pessoas estão lendo menos, acho que, pelo contrário, as pessoas estão lendo muito mais, porém, não estão lendo de acordo com os critérios pré-estabelecidos de certas pesquisas do que venha a ser um leitor ou do que venha a ser Literatura com L maiúsculo. Acho até impossível ler menos: a literatura está em todo lugar.

Como o crítico Evanilton Gonçalves vê a cena literária atual na Bahia e no Brasil?

 Como comentei antes, não sou um crítico profissional. Tento ler de tudo um pouco e tento compreender em que cenário literário me encontro.  Para mim, é interessante saber quem são as pessoas que estão produzindo na contemporaneidade nos lugares mais diversos. Também o exercício crítico que faço, em geral, é muito tímido e particular. De todo modo, percebo que as pessoas têm publicado cada vez mais. Porém, ainda é preciso um grande movimento para mudar muita coisa no mercado do livro, que impacta diretamente na cena literária. Existe um grande monopólio e pouco se discute sobre bibliodiversidade. Ainda hoje as grandes editoras levam praticamente todos os prêmios literários, os autores do eixo sul/sudeste são os que, em geral, são convidados para as grandes feiras literárias, para os programas televisivos sobre cultura e literatura e são os que escrevem em jornais e revistas. Embora eu escreva a partir da Bahia, gostaria que a literatura que produzo circulasse por todo Brasil e pelo mundo. Nesse sentido, embora muita coisa boa esteja sendo produzida na Bahia e em outros lugares pouco lembrados do país (como o norte), vejo que o cenário baiano ainda precisa ser “descoberto” pelos brasileiros daqui e de outras regiões. Em verdade, avançamos timidamente. Franklin Carvalho, por exemplo, venceu, no ano passado, o Prêmio SESC de Literatura, com o livro Céus e Terra e, por isso, foi publicado por uma grande editora, o que permitiu a visibilidade para ser lido e premiado com o Prêmio São Paulo de Literatura na categoria romance de autor estreante com mais de 40 anos. A poeta Lívia Natália venceu o Prêmio APCA 2017. Enquanto isso, a “cara” da literatura brasileira contemporânea continua pálida e muito bem localizada.

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Evanilton Gonçalves é escritor, revisor de textos e crítico literário. Nasceu em 30 de julho de 1986, em Salvador, Bahia. É Graduado em Letras Vernáculas pela Universidade Federal da Bahia – UFBA e Mestre em Língua e Cultua pelo Programa de Pós-Graduação em Língua e Cultura na mesma instituição (PPGLinC / UFBA). Participou como convidado da 4ª edição do ciclo Páginas Anônimas –A literatura que o Brasil faz e você desconhece, programação da FLIP – Festa Literária Internacional de Paraty 2017, através da FlipZona, que ocorreu na Casa da Cultura, em Paraty. É um dos editores do blog Diários incendiários. Já teve textos publicados nas revistas Subversa, Desenredos, no jornal literário RelevO e no blog da Companhia das Letras. Integra a plataforma Oxe: Portal da literatura baiana contemporânea. Participou, como escritor convidado, do Circuito Artístico Educativo Sarau da Cor 2017, na Cidade do México e em Oaxaca de Juárez. Publicou o livro de prosa Pensamentos supérfluos coisas que desaprendi com o mundo (Paralelo13S, 2017), que está em processo de tradução para o espanhol. E-mail:evaniltongoncalves@gmail.com

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.