Modulador de silêncios

Ter ouvidos capazes
de modular silêncios,
escutar timbres
e tonalidades inalcançáveis.
Perceber o som do pêlo que cresce
e a exata frequência do azul dos céus
no outono.

Vasculhar a voz das formigas
que comandam o carregamento de folhas.
Alcançar o suspiro ancestral da Terra
quando uma semente brota.

Ter ouvidos que consigam
transcodificar sons sem sentidos
dos movimentos das mentes.
Não para devassar os secretos
rios subterrâneos dos pensamentos,
mas para divagar nas melodias ocultas
das frequências das sinapses.

E, assim, fazer silêncio
para repousar
as ideias polifônicas
na densidade do dentro.

Guardar nos ouvidos o som das conchas
e a viscosidade do animal invertebrado
que a habitou.
E, por fim, ter ouvido de ouvir
e registrar todas as vozes distintas

de uma fuga de Bach
ou uma feira livre.

Soneto em forma sonata

Meus pulmões sorvem ar cotidiano,
mas algo já parece diferente.
Sequer sei precisar: por mais que tente,
eu não explico o instante soberano.

O que, intocável, faz que brilhem sóis
sem ter havido nada de sublime?
O que, sem nome ou fato, é que se exprime
na exatidão em que se faz a voz?

Não sei supor com que eu me assereno.
Será que é parte em mim que ao fim ecoa
ou é, talvez, a imperfeição de um tom?

Se ar cotidiano faz-me pleno
e enfim me iguala a tudo quanto soa,
passo a existir exato como som.

Inundação a duas vozes

Entre piedras, cactus, abrazos y algodones
viene de tus pupilas pozo de agua infinito
hacia el plexo de mis adentros
donde duela nunca dudes, camino certo
(Perotá Chingó – Certo)

I

Doar a voz ao público.
Inundá-la de notas,
acordes quase abraços
e ritmos múltiplos.

Acender fagulhas
em todas as almas
apenas com o som.

II

Reverberam harmonias
que habitam essa forma
aquosa de música.
Um aguaceiro de lágrimas
apascenta o peito.

E assim ouvimos mergulhados
em lagunas amnióticas.

III

Milênios há
sob o chão dessas vozes donde
emanam sacras alegrias.
As sacerdotisas do som
evocam antepassados
e projetam

os olhos do amanhã.

IV

Fazer da voz a ferramenta.
Para avivar o fogo
não falta o ar,
assim como a água é vital
para fecundar a terra.

Isso é o que diz a vida,
esse infinito espelhado em mandalas.

V

Solares canções pequenas
reverdecem o dentro
de cada manhã.

E assim cantamos também,
dando graças
e pedindo à vida:
empresta-me teu sol!

VI

Lavra louca
trespassada por águas
que espelham o profundo –
essa é a matéria
que engendra nossa voz.

Assim se pode ouvi-la desde
as raízes de si.

VII

Silêncios também soam
com eloquência.
Fazem das gentes
ilhas num mar de encantos.

E se anuncia esse mistério
sob a forma úmida de um canto
desde a primeira chacarera.

Jogos herméticos

(em comemoração conjunta dos meus 38 anos e dos 81 anos de Hermeto Pascoal)

I

Ele conhece a intimidade do som,
as frequências brincantes
de cada nota.

Quase posso tocar
no ar
a cadência hermética

do impossível.

São sons de se ouvir
com a nuca.

II

Ele pega um compasso
e divide
e distorce
e retorce.

Acelera, ralenta, breca
ad infinitum.

III

Ele sabe que é possível extrair
a magnitude de cada
objeto.

Afinar brinquedos,
ritmar tamancos,
descobrir a embocadura
de uma chaleira

e fazer de qualquer coisa
matéria de soar.

IV

Ele joga com as notas,
empilha várias delas
e dança com suas durações.

Em seus jogos herméticos,
a única verdade
do som é o corpo
que o produz

e determina

suas inúmeras qualidades
e efeitos.

V

Ele improvisa a chuva
que mareja os olhos
a partir dos ouvidos.

Diante do milagre
do som, compreendo
que música é coisa
de criança

eterna.

Toda brincadeira é imensa demais
para não ser levada a sério.

VI

Ele entende do trítono,
esse tão íntimo

intervalo do delírio.
Em suas mãos
nada desafina
e os semitons deslizam

caudalosos

como leitos de rio.

VII

Em consonância
estão também os nossos sóis.
E neste novo ciclo

que se inicia no céu
de nossa boca
(esse instrumento
de pulsos, tons e palavras),

celebro a viva certeza
de que há oitenta e um anos
(descontados os sons uterinos
e as composições placentárias)
ele se diverte

com notas
como eu

com palavras.

Intervalos do delírio

(em conversa com Ricardo Escudeiro)

Nas vozes angelicais
ou nas gargalhadas de enxofre,
todas as doze notas
se encontram em rigorosa
correspondência.

O diabo em música
altera apenas
os intervalos.
Seu ludíbrio consiste
em descartar o que não é
inteiro.

A inteireza de três tons
parece desafinar
o mundo todo.
Soa como ruído
e vida proscrita dos cantos
litúrgicos.

O corpo espera sôfrego
a resolução e repete,
com o ouvido:
trítonos são os intervalos
do delírio.

Espelho dos tempos

(À Cia. Coral Mawaca)

I

Quando canto projeto no futuro
cada som que eu desejo permanente.
Mesmo lançando a voz num tempo obscuro,
já me sinto soando lá na frente.

Quando canto eu sei que me aventuro,
pois soando me ligo no presente
de modo mais inteiro e mais seguro.
É na voz que carrego o que é urgente.

Nesse espelho dos tempos que é a vida,
eu sou um eco vago que convida
o agora a se encontrar com o amanhã.

São urdidas num cântico voraz
as longínquas memórias lá de trás,
levadas pelos ventos de Iansã.

II

Quando cantamos, nunca estamos sós.
Na voz levamos nossos ancestrais
e as canções que trouxeram para nós.

Passageiros do ar, são pelos ventos
conduzidos os sons inaugurais,
espelhos de folias e lamentos.

Eu ouço sedimentos de memórias
ressonando em escalas. Ouço vidas
que nos contam e cantam as histórias
que movem nossas forças incontidas.

Meu corpo é instrumento em que se abriga
tudo o que invoco e sinto que é sagrado.
Celebro assim, numa canção antiga,
as vozes e os cantores do passado.

Canção profética

(Para Fabiana Turci)

O vento sopra e espalha meus cheiros
Danço no rastro de uma melodia
Giro-me na jira dos dervixes
Penso com o tambor do peito
Digo a melodia do desejo
Ajo onde os olhos põem minhas mãos
Invento o tempo na casca oca e úmida de uma árvore
A umidade e o tempo enrugam minha pele
Ainda que a luz me falte, me restará a voz e minha possibilidade de cantar
Chamo um novo dia na chama da vela, que quase ilumina minha noite
Evoco ancestralidades e tempestades
Toco meu terreiro com pés e mãos nus
Piso o chão sagrado com o inteiro do corpo
Diluo-me em águas e pântanos
O Pentecostes é minha língua de fogo sobre a tua pele
Eu me perfumo com o cheiro agridoce de tuas virilhas
Uma canção profética já me anunciava
Pelo amor me alinho ao cosmo de palavras e sons
Eu te busco em meus pensamentos, palavras e atos
E assim tu estás comigo

A doma do caos sonoro

3 Laudate eum in sono tubæ; laudate eum in psalterio et cithara. 4 Laudate eum in tympano et choro; laudate eum in chordis et organo. 5 Laudate eum in cymbalis benesonantibus; laudate eum in cymbalis jubilationis.
(Psalmus CL, vv 3-5)

perfeito maior
acorde soando inaugura
a tonalidade
ou sua
relativa menor

modula o tom
e leva para outros
……………………………..cantos
outros cânticos

a música
é uma égua bravia
que se pode montar

melisma cromático
desliza sons

a voz do instrumento
…………………………………..de carne
…………………………………………………..madeira
…………………………………………………………………corda
……………………………………………………………………………ou metal
…………………………………………………………………………………………..arpeja
o tema
a coda
o trítono
a resolução

o resultado
em sua inapreensível fugacidade
percute um mistério

que silencia o dentro

se há um deus
ele soa
e só


Teofilo Tostes Daniel

Carioca radicado em São Paulo desde 2006, é autor do livro Trítonos – intervalos do delírio (Patuá, 2015). Publicou ainda Poemas para serem encenados (Casa do Novo Autor, 2008) e participou da coletânea de contos História Íntima da Leitura (Vagamundo, 2012). Mas antes foi assim: até os dez anos de idade, aprendeu o mundo de ouvido. Então dois pedaços de vidro inseriram em seus olhos o conceito de nitidez. Descobriu-se um pouco Miguilim, encantado com a forma das coisas e das letras. Porém, jamais deixou de apreender o mundo como se fosse música. Já com a nitidez no olhar, foi a leitura de uma crônica de Drummond, ainda na infância, que lhe abriu um vasto campo de possibilidades: descobriu que as palavras poderiam servir para coisas além do dizer; elas poderiam ser como ruído e delas era possível extrair o gozo. Escreve em http://teofilotostes.wordpress.com/.

Imagem destacada: 
Jardim das Delícias Terrenas, Bosch

Escrito por Roberta Tostes Daniel

Roberta Tostes Daniel, carioca. Tem poemas publicados nas revistas eletrônicas Mallarmargens, Zunái, Musa Rara, Diversos Afins, Estrago, Incomunidade, além de blogs e no site do Centro Cultural São Paulo. Incluída nas antologias: “Desvio para o Vermelho” (CCSP), “Amar, verbo atemporal” (Ed. Rocco) e “história íntima da leitura” (Ed. Vagamundo). Email: robertatostes@gmail.com “Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra” (António Ramos Rosa)