A tentativa de suicídio de uma aluna durante sua aula foi o tiro que Téo precisava para abandonar de vez a profissão de docente. Havia se graduado em Música para poder aperfeiçoar suas composições e técnicas vocais antes de se lançar no mercado fonográfico, e não para voltar à sala de aula e enlatar seu talento no Ensino Médio. Se ainda lecionava Arte, era justamente para sua conta poupança encontrar o tom certo e permitir que ele se mudasse à capital, a clave das oportunidades.

A experiência como educador, no entanto, não lhe trouxe apenas desafinações, mas também harmonias rítmicas. Uma dessas firulas foi o relacionamento com Silas, prestes a completar 18 anos e com o sonho de se dedicar às Artes Cênicas boicotado pelos pais advogados. O casal o forçava a cursar Direito, mas o rapaz era canhoto às instruções alheias e sentia vontade de seguir a melodia que lhe palpitava em fá bemol. E esse foi o assunto de um almoço escolar no fim do ano letivo.

– Você já é praticamente maior de idade. Espere algumas semanas e venha dividir o apê comigo!

O convite do professor era, ao mesmo tempo, suculento e amargo. Poderia aventurar-se no Teatro, mas antes deveria enfrentar a fúria parental. Precisaria de forças que o espinafre escondido entre os elásticos de queijo não seria capaz de lhe fornecer. Mas limpou os lábios, contornou a orquestra de sentimentos e disse tchau para os pais que não conseguiam compreender a intensidade do processo.

Tomou o ônibus na companhia de Dom Casmurro, que já havia gostado na leitura por obrigação e que finalmente leria – “Obrigado!”, disse ao cobrador após receber o troco – por gosto. Era curioso como o fato de Dona Glória ter forçado Bentinho a ir ao Seminário não o impediu de manter seu amor por Capitu. Talvez fosse uma amostra de que não seria preciso se ordenar um religioso do judiciário para ser feliz profissionalmente. Silas adormeceu antes do clímax da suposta traição e acordou no ponto final.

Não fazia ideia de como tinha ido parar na Barra Funda, mas sabia que bastava escolher o metrô certo e chegaria a seu destino. Olhou o mapa da estação: Linha Vermelha, Linha Azul, Linha Verde, Linha Lilás… Era tudo muito colorido para uma cidade cinza como São Paulo. Pegou o smartphone para que o Google Maps o ajudasse a se encontrar, mas perdeu o aparelho para o assaltante que parecia ter saltado de um vagão imaginário e entrado em uma plataforma inexistente longe da vista dos seguranças.

Silas tocou a campainha do prédio três horas mais tarde, com fome nos ossos, frio na vesícula e centavos na carteira. Quase sem voz para anunciar sua chegada no interfone, agradeceu que havia um elevador para poupar a ginástica elíptica dos degraus e que Téo já estava com a porta aberta esperando por ele.

– O que aconteceu? Tentei ligar várias vezes, mas seu celular está desligado. Acabou a bateria?

Era evidente que Silas precisava de uma recarga antes de narrar os fatos, capítulo a capítulo, da sua jornada do herói. Foi ao banho para sair e se apresentar à Juliana ainda enrolado na toalha. Ficou envergonhado de exibir o tórax nu a uma morena tão bela. Mas ela estava muito mais preocupada com produção musical do que com abdomes juvenis; voltou a falar com Téo sobre a possível imersão dele na nova MPB.

Enquanto Silas se vestia, a pizza chegou. Juliana havia pedido de espinafre, em respeito à sua dieta vegetariana. Na fúria da fome, Silas nem percebeu se as bordas estavam recheadas com catupiry ou cheddar – era tudo queijo mesmo, ora bolas. O trio passou algumas horas rindo e tomando vinho até – “nossa, como está tarde”, disse a moça – a produtora se despedir do velho amigo e desejar boas-vindas e boa sorte ao novo morador.

– Vocês namoram? – Silas perguntou.

– Ela deve namorar… Mas não sou eu o namorado.

– Vocês ficam bem juntos.

A fala de Silas tinha um alongamento de ciúmes: ele havia ido a São Paulo para dividir o apartamento com Téo, e não para dividir Téo com Juliana. Ou com Júlia, ou com Ana, ou com qualquer outra garota que pudesse se aproximar do seu ex-professor, atual melhor amigo e companheiro de morada. Mas estava com a cabeça cheia, havia passado por emoções demais para um primeiro dia na cidade grande, necessitava de saciar o sono melódico.

Dormiu tão pesado que nem conseguiu aprisionar o sonho que lhe fantasiou até as 7 da manhã. Ainda estava abalado com a mudança de casa, mudança de hábitos, mudança de vida. Dava vontade de chorar e correr para os braços do pai, para o colo da mãe, para aquele alheio desejo constituído do estudo minucioso da Constituição. Precisava de um novo banho: banhos sempre ajustavam os esquetes desalinhados de sua opereta amadora.

A água morna pouco embaçava o boxe de vidro e permitia que Silas se admirasse no espelho sobre a pia enquanto ensaboava as axilas. Permitia que Silas observasse as gotas se aglomerarem em seu corpo e escorrerem pela pele. Permitia… Téo abriu a porta. Não sabia que o banheiro estava ocupado. Os dois ficaram paralisados por alguns milésimos de segundo, mas – “dane-se, agora nós somos amigos”.

Téo dirigiu-se ao vaso enquanto Silas, ainda desconcertado, passava o xampu. Enquanto urinava, Téo descontraiu:

– Bundinha bonita, hein?!

Menos encabulado, Silas arriscou um sorriso, que foi replicado por Téo e logo se tornou riso conjunto, uma cantoria folclórica improvisada, o contrato de cumplicidade firmado por ambas as partes. O choro contido se dissolveu e fugiu com o vapor pela fresta nunca fechada do basculante. Mas a sensação de angústia retornava após cada encontro da oficina de teatro musical à qual passou a frequentar.

“Falta verdade, falta emoção, falta ritmo, falta”… Os abstratos eram infinitos e vitalidade com que o diretor de cena dizia isso escancarava as feridas no ego. No entanto, os fins de tarde, aos pés da cama de Téo, massageavam cada uma dessas chagas. Eram risos íntimos e confissões sinceras que se entrelaçavam na atmosfera que circundava os dois meninos. Até que Juliana chegasse com gargalhadas escancaradas e novidades para compartilhar.

A atenção de Téo ficava hipnotizada nela: nos lábios de maçã, nos seios de tâmaras, nas curvas bem delineadas do quadril. Era como se essas curvas fossem joias trabalhadas por um artista; se os seios fossem crias gêmeas de uma gazela; se dos lábios escorresse o vinho que Téo ansiava tanto beber. Juliana era a Sulamita dos cânticos do rei Salomão. E Silas podia penetrar nos pensamentos da moça e lê-los, saber que ela desejava a mão esquerda de Téo debaixo da cabeça e a mão direita abraçando-a, enquanto os corpos se juntavam num beijo meloso.

– Tá tudo bem, Silas? – perguntou a voz feminina do trio. – Você parece meio pálido.

– Eu preciso arrumar minhas malas.

As palavras saíram antes que a lágrima gelada pudesse transformar a cena em um melodrama clássico. Mas o susto do companheiro foi inevitável: por que ele voltaria para a casa dos pais, pouco depois de um mês na casa nova? Juliana ficou sozinha na sala enquanto Téo – “Eu só queria saber o que aconteceu” – se juntou ao amigo que esvaziava o guarda-roupa.

– Eu também, Téo. Eu também.

O beijo que Silas recebeu nos lábios não foi um impedimento para que ele fechasse o zíper e atravessasse a porta levando a bagagem pela alça. Não houve trilha musical nem efeitos de sonoplastia para a despedida. Dias depois, Téo encontrou o livro de Machado de Assis esquecido sobre o criado-mudo, mas àquela altura Silas já lia em outras linguagens.

Escrito por João Paulo Hergesel

Nascido em 25 de julho de 1992, João Paulo Hergesel é um escritor brasileiro residente em Alumínio (SP). É doutorando em Comunicação na Universidade Anhembi Morumbi (UAM), mestre em Comunicação e Cultura e licenciado em Letras pela Universidade de Sorocaba (Uniso). Dedica-se à produção literária, com foco na literatura infantojuvenil, e à pesquisa na área da Narrativas Midiáticas com foco no estudo do estilo. Autor de livros com temáticas diversas e com participações em várias antologias, coleciona dezenas de prêmios literários, nacionais e internacionais – entre eles: Desafio dos Escritores (Câmara dos Deputados), Cancioneiro Poético (Instituto Piaget Portugal), Concurso Monteiro Lobato de Contos Infantis (SESC-DF) e Prêmio Ganymedes José de Literatura Infantil e Juvenil (União Brasileira dos Escritores).