A ameaça à democracia brasileira é real. A campanha eleitoral das presidenciais do Brasil tem acontecido na internet, dentro das redes sociais. São quaisquer contributos para o fluxo de informação que têm formado opiniões. Este é o contributo de alguém que escreve para a plataforma Liberoamérica, “uma plataforma iberoamericana de mais de 500 autoras e autores jovens constituída em torno da literatura contemporânea, da cultura latino-americana, do pensamento transnacional, da integração e da pluralidade social, da igualdade étnica, cultural, de género, de classe, de crença, de corpo e orientação sexual.”

Pretendo apelar a toda a gente envolvida na plataforma (e também fora dela), para quem será de especial interesse reflectir sobre a ameaça à liberdade de expressão no Brasil que representa o candidato do PSL Jair Bolsonaro. Aliás, já que escrevemos numa plataforma literária e já que tanto se manifestam as pessoas nas redes sociais, refiro-me à ameaça à palavra. Dita, escrita, cantada, pintada, dançada.

Só em 2018, há registo de 23 acções metidas por Jair Bolsonaro contra a circulação online de notícias “negativas” ou “críticas”. O direito à opinião crítica é um dos aspectos que previne a estagnação de um país. É através da crítica que se gera discussão e é através da discussão que se provoca mudança. Opor-se à opinião critica é opor-se a qualquer tipo de desenvolvimento de um país. É promover o congelamento da diálogo entre cidadãs. É manifestar-se expressamente contra a democracia e contra a palavra.

A Folha de São Paulo foi um dos principais alvos de acusação (ou ataque) por parte do candidato por ter publicado dia 18 de Outubro um relatório denunciando uma operação de difusão de mensagens de WhatsApp de teor propagandista contra o candidato do PT Fernando Haddad. As mensagens incluíam texto, imagens ou memes, divulgando informação falsa sobre Haddad e o Partido dos Trabalhadores. Segundo as investigações, a operação terá sido financiada por empresários envolvidos num esquema semelhante durante a campanha eleitoral de Trump.

Bolsonaro apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição para tentar impedir a acção de juízes que suspenderam o WhatsApp durante 48 horas, referindo a “importância do livre acesso à informação, da liberdade de expressão” e afirmando tentar “inibir suspensões e interrupções “casuais” do meio de comunicação essencial à nossa democracia”.

Para além disso, manifesta-se também num vídeo no Facebook contra a limitação do número de destinatários simultâneos de mensagens enviadas através da aplicação. Afirma que lutará para que a aplicação possa ser usada como antes, quando era possível enviar mensagens a 200 pessoas de cada vez (o número desceu para 20).

Primeiro, parece bastante plausível que a utilização da aplicação WhatsApp seja de extrema importância para Bolsonaro durante a campanha. Quem deseja enviar mensagens a 200 pessoas de cada vez só pode ter um objectivo: manipulação e propaganda. Claramente é do interesse do candidato deturpar informação e difamar contra Haddad, Lula e Dilma. Afinal é arrancando das pessoas o tão cultivado ódio pelo PT que Bolsonaro obtém o seu apoio.

Segundo, apoia o uso do WhatsApp através de discursos sobre a liberdade de expressão, a comunicação e a democracia, virando as posições ideológicas ao contrário. Não há nada em Bolsonaro que fale pela democracia ou pela liberdade de expressão.

Bolsonaro não está interessado em diálogo, mas sim em jogos de manipulação de teor propagandista e anti-democrático, tal como podemos averiguar pela sua recusa de participação em qualquer tipo de debates ao longo da campanha eleitoral.

Bolsonaro não está interessado em ouvir opiniões daquelxs que a ele se opõem. Aliás, talvez também não esteja interessado em ouvir opiniões de muitas das suas e dos seus apoiantes, sendo que neste grupo estão incluídas pessoas afro-brasileiras, mulheres ou cidadãs e cidadãos socialmente menos privilegiadas, grupos que têm sido alvo de ataques racistas, misóginos e discriminatórios por parte do candidato do PSL.

Não interessa a Bolsonaro discutir ou debater, uma vez que os problemas se resolvem através da tortura, da violência, da guerra, da força militar.

Bolsonaro não procura diálogo, não está interessado na palavra, apenas do poder.

Aquilo que está a acontecer agora, independentemente daquilo que se publica e que se afirma online é liberdade de expressão, é um (talvez) diálogo entre membros do eleitorado. É também este tipo de comunicação que deixa de existir a partir do momento em que Bolsonaro é eleito.

Uma cidadã completa deve manifestar-se politicamente, deve optar por lados quando o seu país se vê numa situação política desta natureza, entre a democracia e a ditadura. ABSTENÇÃO NÃO É SOLUÇÃO. É absolutamente vergonhoso ouvir pessoas como a líder do CDS Assunção Cristas afirmar (numa entrevista à Rádio Renascença) que “se tivesse nascido brasileira, não iria votar neste fim-de-semana”. Cristas apela abertamente à abolição da palavra, da opinião e da opinião crítica. É isto precisamente que procura também Bolsonaro na sua campanha, acabar com a palavra e com o diálogo fundamentais num regime democrático.

(E é absolutamente lamentável Cristas fazê-lo em Portugal, onde houve mais de 50% de cidadãs e cidadãos brasileiros a votar em Bolsonaro. É apenas agravar mais a situação ou facilitá-la para o candidato de extrema-direita.)

Já que escrevemos, já que materializamos a nossa palavra do mundo de uma forma ou de outra, é nosso dever combatermos aquilo que a ameaça. Porque se se vai a palavra pela opinião, não duvidemos que ela também desaparecerá pela motivação literária ou artística, como aconteceu no Brasil entre 1964 e 1985.

E já que somos mulheres, PoC e pessoas da comunidade LGBTIQ+, é importante mostrar resistência e mobilizarmo-nos contra um político que abertamente ameaça a nossa existência, visibilidade e emancipação social.

Fernando Haddad, que, ao longo do seu percurso académico, passou pela Filosofia, Ciência Política e Economia, que exerce o cargo de professor universitário há 21 anos, que assumiu o cargo de Ministro da Educação durante sete anos, que lutou e contribuiu para uma melhoria no sistema educativo no Brasil será certamente alguém mais favorável à liberdade de expressão, à transparência, à formação do pensamento crítico. E será com certeza alguém mais próximo do povo brasileiro.

As cores que predominam na campanha de Bolsonaro enganam. Um governo bolsonarista é cinzento, sem cor. Não há expressão e não há expressão do povo brasileiro.

Deixo ainda uma lista de alguns (dos muitos) jornais ou plataformas internacionais, sítios onde se fala e discute, que já alertaram para o perigo que representa Jair Bolsonaro: The Economist, El País, The Guardian, New York Times, Washigton Post, la Repubblica

E ainda uma antologia de artistas e pensadorxs que alertam contra Bolsonaro como perigo para o Brasil, mas também para o mundo e para o emergente e nocivo populismo:

https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/23/politica/1540312553_935199.html

Domingo a escolha é Fernando Haddad.

Pela liberdade de expressão, pela palavra, seja ela escrita ou materializada de outras maneiras. Pelo pensamento crítico, transparência e diálogo! Pela democracia brasileira!

#ELENAO #ELENUNCA #ELEMATA #NAOAOFASCISMO