eles dizem o corpo é casa,
eu digo o corpo feminino é terreno baldio.

aberto,

pra quem quiser tocar,
apertar,
esfregar,

eles insistem,
insistem eles em me chamar,
anônimos

invadem o espaço de mundo que ocupo,
fincam bandeiras,
constroem casebres só para demoli-los em seguida.

a decadência da civilização impõem a mim,
e quando a lâmina de barbear tira um lasco de sangue das minhas coxas,
me pergunto
será que ninguém percebeu que essa porra não tá dando certo.

cai babylon,
eu repito em meu sono enquanto puxo o lençol cobrindo-me toda, agarrando-me, com medo de não sei o q-
-sei sim, respiram no meu ouvido.

o corpo tem memória ancestral,
minha vó fala comigo,
quando sinto seu aborto forçado aos 15 anos
como um pontada no ventre
enquanto corro para não perder o ônibus olha lá o 572 passou direto.

cai bablyon,
ponha-se no seu lugar,
siga o exemplo de Alexandria
fica debaixo dágua,
onde tua rigidez de nada serve,
só para ser casa dos musgos e mariscos –
só assim para tu ter vida.

meu corpo é oceano esférico, assim como o de Jussara Salazar,
não é de comer
é de beber,

ele deságua
e nele desaguam
rios e oceanos,
e amores e orgasmos,
e campos de arroz e vitórias-régias brotam
dele
porque eu crio vida
em meu ventre
e vc
faz o q

Escrito por bruna cataldi

Bruna Cataldi nasceu no Rio de Janeura em 1990. Tentou fazer cinema, tentou fazer artes visuais e acabou na escrita. Sonha em juntar imagens, palavras e política - e conseguir pagar as contas. Publicou o livro de poemas “Minha asa é de areia” pela Editora Oito e Meio. Escreve no medium e no instagram>> @brunacataldi