E a Cpfl* desliga a Luz do Poeta

André Nogueira

* (Cpfl: Companhia Paulista de Força e Luz)

O poeta chega em casa.
Abre a porta, toca o interruptor.
Toca de novo. De novo, e de novo
(ininterruptamente…)
“Filhos da puta!”
Fecha a porta. Pára, escuta.
À janela, tateando, abre a cortina.
Luz débil, noturna, que mal ilumina
a parede lateral do apartamento.
Uma clareira no sofá entre os papéis
e cai, perplexo, o poeta.
Seu primeiro pensamento:
“Deus, a geladeira! Vou perder toda a comida!”
O ranger dos automóveis na avenida,
seus reflexos deslizando na parede
lhe parecem sugerir alguma coisa:
“Na verdade, quê comida?
Sim! A sopa que mamãe mandou pra mim!
Se de hoje pra amanhã descongelar,
terei, então, o que almoçar…
A não ser que acabe, além de tudo, o gás.”
Ora, convenhamos: não é tão mau assim!
Na escuridão se aprende logo
a enxergar por outro ângulo.
“Exatamente! Estou em paz
como talvez jamais estive!
(E de repente…) Mas espera…
E o trabalho, como faz!?”
Computador olha severo
entre as negras pilhas de livros.
Mas de novo, pela apagada tela,
os reflexos lhe parecem sugestivos:
“Eh, tivesse eu trabalho,
comida teria! E luz, inclusive!”
Tenra brisa da janela,
os faróis dos automóveis
em seus móveis de sombrias silhuetas
dão a ele a piscadela:
“Nada que eu não faça
com papel e com caneta!
Mais romântico escrever a luz de…
Velas!” Ele salta do sofá:
“Ontem mesmo acendi uma no altar.”
Tateando abre a gaveta:
“Bens a Deus! Sobraram duas!
Boa hora pra fazer a minha prece.
As velas, entretanto, melhor economizar.”
A brisa de novo balança a cortina
que parece, quase, um manto,
e nela o poeta a cabeça recoste:

“Valei-me, oh Mãe Divina!”
E de joelhos cairia ante um poste!
Mas piscando para ele
só a luz dos automóveis
na parede se projetam.
Infeliz este poeta!
Que a ela não comove,
nem comovem outros lares
onde em meio à escuridão
alguém acende a luz da vela.
Religião, é o que dizem,
vem do verbo “religare”.
Que seja, aos deuses apelem!
Bastaria para mim, por compaixão,
que fizesse o religamento – a Cpfl.

13-14 de novembro 2018

   

Escrito por André Nogueira

André Nogueira. Nascido em Herdecke, Alemanha Ocidental, 1987. Registrado cidadão brasileiro no Consulado em Munique. No Brasil desde 1991. Radicado na cidade de Campinas – São Paulo. Formado em Filosofia pela Universidade Estadual de Campinas e em Literatura e Cultura Russa pela Universidade de São Paulo. Publicou “Pontualmente ao Encontro ou Pomos, um Adão cada” (Ed. Medita, Campinas, 2011) e "O Manifesto Lenitivo" (Ed. Urutau, Bragança Paulista, 2015). Tradutor, poeta, ensaísta. Contato pelo endereço eletrônico: andresala40@gmail.com