antes de alcançar a altura do espelho

foi na água que se viu refletida

em um salto buscou o abraço na lâmina fria

para encontrar sobre a pele as marcas do apressado resgate

não fazia ideia de si

era no outro, ao alcance da mão, que se reconhecia.

 

cresceu sem água na torneira

ou ducha no banheiro

do olho d’água lhe chegava os goles

da cacimba e das chuvas os banhos

do recolhido nas bicas a alvura dos lençóis

da aurora o véu delineando contornos em espelho de cristal.

 

cercada de rios e vidros

quando a chuva cai sobre a noite diz ser preciso parar e ouvir

é no tímpano que a água ressoa e faz brotar os espelhos

lava e leva tudo no seu fluir eterno

como no primeiro dia ainda crê que renasce do emergir

e que no reflexo haverá o outro a se repetir em breves desvios.

 

 

[Foto: Maria Dimas Ribeiro Lages]

Escrito por Sergia A. Martins de Oliveira Alves

Aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, memória e cultura