A cabeça rígida do homem parecia rugir, por isso, ela pôs seus olhos a ver a pintura. Gustavo tinha a cara feia, e era uma analogia para o que Mariana olhava agora. De onde estava ela via galhos retorcidos, uma rua estreita e cinza, um lago imundo e negro – fétido –, pensou. Imprimia nos olhos esse fedor; inflava as narinas.

Quando casaram, ela quis um bairro Francês. “Aquele das pinturas, meu bem. Lindo não é?”. Claro que é. Queria viver solta, respirando a beira do Sena. E o que mais podia sonhar? Mas o homem com cara de touro apenas maneava a cabeça, sempre parecendo concordar com um tronco.

Ocupavam um lugar reservado para casais, e nem meia hora de mesa e já não tinham palavras, que se vão depressa. Ela ainda de cara para a parede e fingia desinteresse, mas aprendera uma arte: enganar. Aos poucos pessoas chegavam ao restaurante finesse, e voltavam os olhos aos dois. Através da parede de vidro podiam ver lá fora as pequenas luzes dos postes que começavam a iluminar, como refletores.

Ela mesma tinha escolhido o lugar, a mesa, as roupas ocasionais; ele não: fazia-se silencioso, vestia-se de um mistério, como um bicho acuado. Pensavam calados. Mariana tinha olhos úmidos e Gustavo torcia um lenço de papel. Sua casa era como um curral, os meninos quase comendo pasto e ele sorria de toda essa infantilidade: marido, filhos, casa. Pensava na mulher como uma sonhadora, via seu perfil limpo, de nariz afilado, um rosto de boneca ou de criança, tão ingênua e besta. “Para você é tudo verdade, como se fosse azul mesmo o mundo”, disse, achando que de alguma forma ela elucidaria.

De frente um para o outro pediram dois expressos com torta de banana. Sempre assim a cada aniversário, e o café, glacê e açúcar enganavam seus movimentos de combate, o gosto insalubre dos lábios, e o máximo que ela podia sentir agora de Paris eram as marcas do pincel grosso, que faziam um sol amargo, e um moinho de vento com a placa do Moulin Rouge. Tudo emoldurado ali na parede.

“As dançarinas, não quer ver?”, ela sonhava sempre em perguntar a ele, depois do jantar, naquele famoso cabaré, mas olhava-o disfarçadamente: um cigarro na face carrancuda como um tijolo e encontrou aquele olhar por cima dos grossos aros dos óculos.

“Nunca mais tínhamos voltado aqui”, ela disse, encarando a fera, sua pele quente quase da cor da própria roupa. Sim, isso é uma grande verdade. Ele mesmo concordou, apoiando os braços sobre mesa. Viu, sob a luz, as marcas: pelos brancos no braço ou nos tufos atrás da orelha, todo silêncio, as unhas roídas de sua mulher, a própria voz que lhe parecia rouca como um mugido e o fedor da sua pele e pelos. Sentiu que era o momento.

“Não vamos adiar mais”, ele disse. “Como prefere?”.

Ela virou o rosto da parede. Pena em abandonar um La Place du Tertre, e todos os quadros, quadros coloridos de artistas. Na verdade, só agora se deu conta de que não pensara nisso até aqui. Mexeu as sobrancelhas, tentou sorrir, arrumando parte do tecido vermelho do vestido. Se tivesse que ser o fim – se tivesse mesmo que morrer agora –, seria sublime, pois tão perto de Paris.

“Você é um canalha”, foi o que disse, e o outro mostrando os dentes com a fumaça branca que saia da piteira e do nariz. Ela e o gosto azedo de red e medo daquele homem encarando-a e bufando como um animal: “Prefiro que seja um tiro, bem aqui”, e apontou o meio dos seios.

Mas ele desfez seu pedido em lágrimas, e veloz e mentiroso, sem querer abrir mão de nada, desistiu. Teve dó, que era um secreto desejo: avançar para ela, tirando poeira dos cascos e enfiar-lhe a ponta de um chifre.

“Vamos conversar”, ele disse. “Precisa ouvir o que tenho a dizer, confie em mim, eu…” Mas de súbito ela lhe cravou uma adaga no lombo – até os olhos furiosos ficarem amortecidos – forçando o punho até ouvir um estalo. “Vou morrer?”. Não sabia só que ela agora ama com orgulho essa luta, e virou-lhe o corpo, abandonando o restaurante.

As pessoas loucas fugiam das mesas próximas enquanto o sangue negro de um touro escorria pela arena, e a plateia – a grande maioria das gentes – aplaudia.

Escrito por Diego Noleto

Diego Noleto (Teresina-PI, ..85) é jornalista, escritor e professor. Formou-se em Jornalismo e Literatura Brasileira e Portuguesa. É especialista em Literatura e Estudos Culturais. Foi repórter de cultura e começou a escrever contos em 2015. Já publicou nas revistas Desassossego (USP-SP), Desenredos, Revestrés (revista de cultura), o Gozo e Benfazeja. Participou da antologia “Distrópicos – Contos Fantásticos de um Brasil Imaginado” (Carreira Literária, 2018). Escreve para o site Geleia Total, como Lazarus Silvestre.