Ela era toda olhos e lágrimas e o sentimento que não sabia dizer nem explicar. Tudo reunido no sem sentido de todas as coisas. Como é que se vive sem sentido para as ações do viver? Não sabia, mas empurrava os dias mesmo assim. Como quem engole uma comida gelada, sem sabor e sem fome.

Passara meses costurando amanhecer e anoitecer com o desejo de descobrir, em algum possível amanhã, um fio de significado despertado com a próxima e desejada aurora transcendente. O fio demorava-se a surgir e a transcendência esperada também não tinha pressa. De errância se faz o tempo de todos os processos, de vida ou morte. Vagava sob os dias como um morto vaga sobre o sem tempo. E, apesar, esperava a esperança resplandecer. Colecionava despropósitos na função que ocupara por anos, não cabia mais no quadrado da vida dela. Transmitir conteúdos e emoções contidas nas palavras. Para quê?

Sentia o abismo gritando naquilo que um dia foi ninho. Havia distância familiar demais e apenas sangue enlaçava vidas estranhadas. Patinho feio em ninhada de desiguais assumindo a diferença que não devolve o que nunca foi. Conversas mudas em volta da mesa de jantar e uma televisão anunciando amores criados e sustentados sobre um sólido pilar de fumaça. Ilusão.

Desajuste. Dessintonia. Desencanto. Depressão.

Faltava chão para sentir os pés. Sobravam olhos para chorar e lágrima não era problema. Também não era solução, mas pouco importava. Queria secar a fonte do abismo, pretensiosamente. Como? Abismar-se até o fundo do oco possível e impossível. Assim fez e foi somando dessignificações ao que parecia vida. Percorria estradas em ônibus cujas janelas abriam para lugar nenhum. Nada a significar. Um código escrito no vazio a ser decifrado sem dicionário ou afim. No mato, no abismo, sem cão, sem gato. Sem. Engolia os dias, cada um, depois de uma jornada de ações prenhes de insignificação. Ia ficando grávida de nada até quando. Não sabia o dia de explodir-se. Ou de ver na aurora um fio de sentido.

Catava palavras nos papéis em branco ou nas linhas dos livros na estante para alimentar algum sonho, para não se matar. Fugazes, inconstantes e volúveis eram as palavras. Queria um alicerce onde reconhecer os pés marcados da rota. Não havia garantia no risco de viver, ela sabia. Nunca imaginou que tivesse que caminhar sobre o vazio, sem ter onde deixar o sinal dos passos.

Sem sentido. Restava uma só certeza de que tudo teria um motivo, ainda que desconhecido, um fim, um propósito no despropósito de continuar vendo o tempo passar Centenas de dias secos no buraco oco de sentido até o dia de não aguentar e rebentar(-se).

Até o dia, ela segue o caminho, com um rio nos olhos, porque escolha não tem: seguir a rota. Apesar e ainda.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.