Mudei o sofá de lugar
pus assim
encostadinho na janela,

deitei para testar a nova posição,
lendo crônicas de futebol ao acaso
em qualquer livro que busco na estante

eu gosto de crônicas de futebol
não gosto
muito
de assistir futebol,

na escola joguei handball
fiquei estrategista,
ganhamos um jogo,
perdemos a final.

Desisti da carreira,
apesar de estrategista
eu não jogava muito bem e
fiquei irritado que as partidas da escola
nunca formavam os movimentos padrão da tv.

Vejo uma aranha pendurada debaixo da janela
solto fumaça em sua direção,
fico apreensivãn,
volto a ler

volto a olhar aranha
pendurada, parada, encolhida

Oh, céus, matei a aranha,
levo a caneta até o minúsculo corpo
que se espaventa e dá um pulo!
rio

e sigo ao vento da janela
balançando do seu lado.

Agora o show que eu dei
quando duas enormes
me encurralaram no box do banheiro,
nuinho, as duas apertadas num canto
vem andando na minha direção,
mataram pra mim, foi esquisito.

Fiquei arrependido depois
de colher seus corpos com o saco plástico,
grandes merda.

Volto a cutucar a aranha com a caneta,
preocupada,
dessa vez ela se irrita
e corre pra dentro do sofá.

Cheirosas

Acabei de tomar banho
pássaros, trovões
chove.
a terra também

usa sabonete no chuveiro?

 

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, artista visual, curadora. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo.