Às vezes o dia nasce vermelho e pulsante feito coração. Foi o que ele disse naquela manhã ao encontrá-la na varanda tomando café. Chegava de surpresa, quando lhe dava na telha, e há muito que ela não reclamava da presença ou da ausência inconvenientes, cada uma a seu modo. Foi então que ela se deu conta do viço das flores do antúrio cumprimentando alegremente os primeiros raios da manhã, do rubor no seu rosto e da caneca que avermelhava suas mãos. Levantou-se desarmada. Já não havia o que questionar. Leu o cartão e agradeceu o rubi, intrigada com a misteriosa coincidência e o repentino desejo de recomeçar. Lá fora os acordes de um violão flamenco invadiam o ar.

Às vezes o dia finda azul e frio feito pedaço de lua. Foi o que ela disse naquele entardecer quando ele apareceu pontualmente para o jantar. O encontro vinha sendo adiado há tempos, sem atropelos. Que diferença faria um dia a mais ou a menos? Convidou-o a sentar-se à mesa finamente disposta. Não sem antes fechar a janela para controlar a temperatura do ambiente. Foi então que ele se deu conta das violetas que adornavam uma pasta de fundo azul. Azul também era a tinta da caneta enquanto a pouca luz que atravessava os vitrais dava um tom levemente azulado aos papéis que ele devia assinar. Ao longe ouviam-se notas de um velho blues.

Escrito por Sergia A. Martins de Oliveira Alves

Aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, memória e cultura