O barco atravessa a escuridão
a proa em saltos
absorvendo na foz as marolas
sob o casco o duelo
a correnteza do rio e a invasão do mar
antes do abraço que dilui no sal as resistências
o silêncio contradiz o ronco do motor
dizendo das angústias que precedem o alvorecer

Ao primeiro sinal de luz
um ensaio sobre a devolução das coisas
ouvidos e olhos atentos captam silhuetas
desviam-se das sombras
contando os objetos à mão
como se ordená-los trouxesse de volta a consistência
como se agrupá-los aguçasse a precisão
das cores que a noite engole

No amanhecer
atravessado o limbo das incertezas
o mundo é palpável outra vez.

Escrito por Sergia A. Martins de Oliveira Alves

Aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, memória e cultura