Meus olhos esperançaram aurora,
mas o dia foi chumbo.
A chuva teimou em não deitar sobre a terra
e lavar tudo.
Há estilhaços cardíacos no meu apartamento
e manchas vermelhas nas paredes.

Por falta de chuva,
derramo lágrimas como um rio
para lavar a barbárie em que se ergue a nação.
Pudesse eu limpar tudo, faria
ainda que secasse inteira
vertendo-me líquida.

Inútil desejo.
Penar é só um passo na história da des-humanidade.

Não há chuva, nem auroras
nem violetas no horizonte.
Por não ter o que me salve, choro.
Quem sabe, ao menos lavo a dor da impotência
a dor dos meus passados e futuros
a dor dos meus ancestrais
a dor dos meus descendentes
que adere à minha pele preta.

Há abismos na minha garganta muda
cheia de líquido.
Não vomito uma palavra sequer.
Falta-me tudo,
até vísceras.
Sobra-me água, lágrima.
Vai ver é para diluir o sal
que salga a terra em que habito.
Vai ver é para lavar todo sal
que corta a minha carne.
Vai ver é para afogar a mim mesma
e levar comigo todo ardor do mundo.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.