O velho jogo

Só pensava que não queria tomar partido, não queria ser responsável. A vida, dizia Josefina, era carrasco. Aprendemos que era difícil, e a vida tirando aos poucos: casa, músculos da pele, a cor dos cabelos, sustento. Pensei em dizer-lhe que não queria – pensei em lhe dizer muitas coisas, na verdade. Não. O jogo vai começar. Então deixei que ele sentasse com o roupão aberto, girei o volume.

Cantavam o hino. Peguei o cardápio. O que pedir? Para nós coisas de natureza, salada ou carne branca, coisas com grãos: um nojo.

“Que tem aí?”, pai perguntando, os olhos na televisão, enquanto tocava as pernas murchas, o pênis flácido. “Nada proveitoso”.

Fui até a geladeira pequena no canto do quarto do apartamento: água tão límpida que dava pena tomar. A água fria e esse quarto gelado, úmido, difícil descer na garganta, e ele pedia: “aumenta aí o volume”.

Time de cada lado.

“Pai, o senhor vê daí a bola?”, perguntei, a cama estava a três metros. “Cala a boca seu infeliz”.

E agora apito e bola rolando. Frio aqui. O primeiro grito daquele narrador, e um berro de cavalo: “Valdares, chuta essa porra”, meu pai gritava. Valdares não é nem jogador. Foi seu antigo patrão, dono de uma chapa de fritar batatas e hambúrguer.

Toco sua testa: quente demais. O pescoço quente, o bucho. A enfermeira? “Não chama nada”. “Vou molhar toalha na pia”. “Pois sobe esse volume aí, porra”. Não estava entendendo. Pediu ajuda na cama, a coluna torta como um bambu. Aquele trabalho de sempre: chamava pra tudo: copo d’água, ligar ventilador, subir as pernas.

Quando trouxe o lenço umedecido, da água fria da pia de mármore, ele lava os pés. “É para sua febre. Você com frio, nesse quarto que parece que se enterra tudo como gaveta de defunto.”

“Olhe isso, rapaz”, e já vai apontando a TV com aqueles jogadores em cores vivas, correndo e trocando bola, e pousa umas mãos suadas no meu ombro.

“É de nervoso, pai? Tá sentindo algo?”.

“Sede. Tenho sede”.

No cardápio só coisas de erva, de água cristalina com gás. Traz uma pra nós? Algo pra tomar? Mas como? Era impossível. Estava ali o velho rabugento, tartamudo e pálido. “Não”, eu disse, e fingi que sua fala fosse um barulho que viesse pela janela.

“Como é não vai trazer?”, agora falou rabugento. As sobrancelhas arqueadas, olhos julgadores na mais pura verdade.

“Você só pode estar louco”.

“Olha aqui, rapaz, só não te bato porque já te empurrei essa mão na cara umas mil vezes”, o braço arqueado na minha direção. “Vai, levanta essa tua bunda daí”.

Dei-lhe o dedo. De volta veio um travesseiro na cara que sacudiu minha cabeça, e o maldito, altivo, sorrindo. “Você pode morrer”, disse-lhe. “Morrer uma pinoia, seu fracote”.

Deixei-o deitado, travesseiro atrás da cabeça. O olhar vidrado no jogo e era como se não me visse sair. A enfermeira no corredor queria saber para onde ia e menti que ia fumar ou comprar água ou roubar um banco. O rabugento me fazia mentir. Pedi que ela o olhasse até a volta, ele parece febril.

Não arrependido de sair por dois minutos. E se não voltasse, sentiria algo? Nada. O corredor atravessava uma avenida e, do alto, dava para ver os carros de um domingo à tarde no feriado, e flanelinhas, e pessoas de mãos dadas e alguns doentes de máscaras e de lenço colorido nas cabeças peladas.

O armazém ficava na outra quadra e, ao entrar, foi até bom sentir aquele cheiro de fuligem e cebola. Tinha o cheiro de dispensa, como a nossa, o odor de corante que impregnava a roupa gomada.

“O que pensa, velho, que sou empregada sua?” E Josefina jogava aquele monte de roupas no colo do velho, roupas com cheiro amargo e marcas vermelhas de dedos; ou, costurando de frente para TV, só deixava que o mundo corresse. Papai cansava de pedir, mas ela lhe virava as costas.

No fundo do armazém, uma velha TV igualzinha à nossa, com aquela chuva de riscados, em preto e branco, e senti o mesmo calor de todos os filhos suados nos domingos. “Tu tem febre, febre mansa de sapo” e Josefina pôs o termômetro em baixo do braço do marido. Mas ele adoeceu rápido demais, perdendo peso, o cabelo caindo.

“Boa tarde, você tem bebidas aqui?”, desviei a atenção e o velho atrás do balcão apontou uma prateleira ao fundo sem tirar a vista da TV.

Eu estava preocupado agora. Ele podia estar passeando nu pelos corredores, ou tocar fogo no colchão. O homem na sua condição de louco e velho e sozinho, sem nada a perder.

Quando entrei de volta no quarto, ele estava falido – comportado como um cachorro morto – e pensei mesmo que a enfermeira o tivesse sufocado com o travesseiro. Levantou-se para sair.

“E aí?”

“Tudo muito bem”, ela sorriu, fechando o rosto para ele até sumir pela porta.

“Podia ter fodido com ela”.

“O quê? O que disse a ela, seu velho boçal?”

Só nós no quarto, eu olhando ainda para a porta com receio, e saquei uma garrafa de uísque das calças e dois copos. A bebida parecia estar quente do meu saco escrotal.

Passei-lhe uma dose e senti sua pele quente de febre.

“Você pode morrer”, eu disse. O velho sorria. Virou um milímetro de bebida na goela, a mão tremida e fraca.

“Não quero ser responsável por isso”.

“Você quer é a herança, seu filho de hipopótamo”.

Mas não havia herança; não havia nada. Era uma forma de falar da morte como aliada, a única. O cômodo era enorme só para nós, não tínhamos ninguém: poucas roupas que Josefina deixou; poucos utensílios; algo muito pouco de nós mesmos e, assim, aliados.

“Não quero ser responsável por isso, mesmo não me importando”.

“Você é um covarde, rapaz. Assuma algo na vida ao menos uma única vez. Tenha postura”.

“E você é um desgraçado”.

Sorria; gargalhava. O jogo na televisão.

“Me sinto responsável por você. Isso foi um erro”.

Foi mesmo, ele disse. “Se a polícia vier, te acuso de tentativa de homicídio. Dar uísque a um doente, onde já se viu?”. Gargalhava mais.

Aumento o volume da televisão quando o homem grita gol lá dentro. Não queria saber dessa desgraça. E o narrador gritava, eram os mesmos gritos lá de casa, nos antigos domingos. Olhei papai que tinha as pupilas brilhosas de neon, a boca fazia uma curva, o bigode tremia.

“O time de sempre, pai? Vai perder”, olhei com satisfação seu rosto carrancudo. Estava calado. Só se perde quando não há mais jeito, e enquanto respirar ainda se pode contar vantagem.

Mesmo perdendo, aumento o volume para ele – topei no máximo. Só o obedeci, como o supri, pondo umas doses de uísque para nós. Olhando-o daqui, estava quieto, mais decrépito e moribundo impossível, e pensei em dizer: “pai, vi ali uma TV, uma TV muito parecida com a nossa”, até estender-lhe a mão com o copo.

“Agora é melhor, hein? Pai? Ei, velho?”.

Não respondeu muito decidido a morrer calado, e entramos nesse silêncio sem volta, a partir de agora, até o nosso fim.

Escrito por Diego Noleto

Diego Noleto (Teresina-PI, ..85) é jornalista, escritor e professor. Formou-se em Jornalismo e Literatura Brasileira e Portuguesa. É especialista em Literatura e Estudos Culturais. Foi repórter de cultura e começou a escrever contos em 2015. Já publicou nas revistas Desassossego (USP-SP), Desenredos, Revestrés (revista de cultura), o Gozo e Benfazeja. Participou da antologia “Distrópicos – Contos Fantásticos de um Brasil Imaginado” (Carreira Literária, 2018). Escreve para o site Geleia Total, como Lazarus Silvestre.
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