É deserto. O silêncio arde dentro de mim e lá fora a vida pulsa e me solicita. Me esquivo. De dentro te olho, estamos juntas, mas não de mãos dadas. Estou certa de que você me acompanha, amiga. Construo para mim escudos de vidro, milimetricamente reforçados, com transparência impenetrável. Me resguardo no meu dentro, me mostro no que parece ser. Um monte tranquilo em ebulição nas entranhas.

É silêncio em mim, amiga. Um desejo de não dizer, de não pensar, de não ser nada além do silêncio. Cogito os dias, planejo as horas para ouvi-lo, ouvir-me, para decifrar o mistério da esfinge que eu sou. Lembro-me das vezes que você dizia que sou silêncio. Eu sempre hesitava e rebatia, querendo-me mais fala e expressões sonoras. Baixo os olhos como quem aceita, resigna-se.

Sigo pelo deserto das cidades em prédios, das pessoas em ausência, pelo ermo dentro de mim. Sigo só. Não, você vai comigo, na distância que nos mantém alinhadas, unidas. Vou por onde é a rota, no vazio. Transponho o frio e o calor do deserto, andante de véus, no rumo da claridade que a areia reflete. É difícil continuar, o solo instável me retém. Me empenho na travessia. Você me diz que o ritmo é variável. Eu me exerço na constância de seguir e chegar onde não sei. Você me lembra a chakana inca, subidas e descidas no percurso místico. Descobrir-se é olhar com amor e dor para o que se é. Mais uma vez você tem razão. Descanso e concordo. Acedo à disritmia do meu ago e me encontro no pulso cardíaco.

A parada é refrigério, é descanso. O trajeto é incalculável. Você sabe quantas são as milhas para chegar onde é? Decerto que sim. E me resguarda do desânimo, suponho. Retomo o fôlego, amiga. Recomponho-me, seguindo o fluxo. Continuar é preciso, eis a minha escolha. Vou trilhando o meu deserto, não vou só porque estou contigo.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.