Tinha acordado de um sono profundo e sem sonhos. Sem olhar para os lados, sentou-se, procurando com a pontinha dos pés, os chinelos que sempre ficavam ao pé da cama. Não estavam lá.  Levantou-se cuidadosamente como sempre fazia, e foi logo saindo do quarto. Era costume acordar primeiro, mesmo que fosse sábado. Neles as coisas aconteciam de forma diferente, já que não acordava com a pressa de arrumar-se para o trabalho. Sábado era dia de degustar as coisas lentamente. Sábado era dia de deixar a fumaça que saía do café diluir-se no ar juntamente com a música que saía no rádio. Sábado era, antes de tudo, dia de abraçar-se à preguiça, ficar de pijama, conversar com as plantas e beijá-lo demoradamente até acordá-lo – não antes de deixar o café esfriando na xícara.

      Sentou no vaso pra fazer xixi. Nem chegou a olhar-se no espelho do banheiro. Sentia que algo estava diferente, a semana passou de forma estranha, sonolenta. Não lembrava bem do que tinha vivido nos últimos sete dias. Recordava-se de ter chorado muito, mas também de ter dormido muito. Foi nessa dúvida, entre ter vivido e não vivido que sentia que agora havia um vazio. Falta do quê? Não sabia.

   Foi à cozinha, estava um pouco bagunçada. Louças empilhadas sobre a pia compunham um prenúncio do caos que estava a casa. Pensou o que teria se passado nos últimos dias que não tiveram tempo de arrumá-la.  Começou a preparar o café. Faria quantidade suficiente para dois, como era de costume. Pôs as água no fogo, pegou xícara para dois, talheres, mesmo que fosse difícil achar algum limpo. Teriam que toma-lo com biscoitos, era a única coisa que havia disponível. Estranhou que ele não tivesse comprado pães na noite anterior.

      Em seguida, foi ao jardim conversar com as roseiras, cactos, samambaias, todas dadas por ele. Sabia da sua paixão por plantas ornamentais, apesar de cultivar também algumas ervas. Como adoravam cozinhar usando manjericão, rúcula, e as pimentas da pequena horta. Olhou com cuidado aquele cacto já murcho, talvez tivesse sido atacado por alguma lesma. Uma pena. Lembrou-se da situação em que ele a presenteara com a pequena planta espinhosa. Tinha acabado de chegar de viagem, e na volta passara pela praça onde muitos floricultores vendiam mudas. Sabia que acertaria em cheio ao escolher aquele: coroa-de-frade.

      Correu apressada pra cozinha, a água já tinha reduzido bastante da chaleira, talvez só fosse suficiente para um. Tomaria e depois faria o dele. Assim o fez. Deixaria ele dormir um pouco mais, afinal era sábado. Bom mesmo era fazer isso juntos, como tudo que faziam nos mais de vinte e cinco anos de relação. Tomou o café bem quente, ao mesmo tempo em que um filme foi passando na sua cabeça. Aqueles anos todos juntos tinham sido tão gostosos tanto quanto o café que tomava nesse exato momento. As viagens, as comemorações pelas datas especiais, tudo tinha sido muito gostoso, lógico que tiveram seus momentos de atrito, mas nada que pudesse arranhar a história linda que tinham construído ao longo desses anos. Apesar da aparente normalidade, algo a incomodava. Apesar do desjejum gostoso, algo não descia bem.

     Listou mentalmente todas as coisas que deveriam fazer ao longo do dia: almoço, visitar alguns amigos, cinema no final do dia. Lógico que fariam isso sem pressa, ou obrigação de cumprir à risca. Se fosse mais conveniente passariam o dia na cama, lendo ou se amando, passariam assim. Nada os impediria. Apesar de toda sua vontade para que o dia corresse bem, seu corpo dizia o contrário. Com toda disposição aparente, sentia-se letárgica. Não entendia ao certo.

      Contudo, o corpo cansado, a vaga lembrança do que ocorrera nos últimos dias, esse misto de sono com estar acordada, deixava tudo mais estranho. Começou a sentir uma angústia. Tomou o café de um gole só, que chegou a descer rasgando. Pela casa apenas o silêncio. Nada que denunciasse a presença de outra pessoa. Não se lembrava dele nas suas memórias recentes. Correu imediatamente para o quarto. Ele não estava lá. Onde estaria? Aonde teria ido? Levantou-se e não a procurou logo de imediato? Afinal, era sábado, ele poderia ter saído pra correr, ou comprar algo no mercado. Esse pensamento confortou-a.

      Lembrou-se de abrir as portas e janelas da casa, precisava da luz do Sol. A sala parecia sobrevivente de alguma batalha. Nada arrumada, chão por limpar. Dariam um jeito nisso. Sentia falta dele, achava estranho seu atraso. Ele não era de demorar assim. Esse pensamento deixou-a nervosa, com isso veio um leve tremor, uma gota de suor caiu sobre a testa, uma queda de pressão deixou-a tonta. Achou melhor deitar-se. De forma agitada, correu para o quarto. Parecia óbvio que algo estava prestes a acontecer, sentou-se na cama como quem cai na realidade, de supetão, de um rompante só. Parecia certa a previsão de um baque profundo. O momento entre o tiro e o alvo acertado.

      Olhou para o lado que ele ocupava, estava tudo impecável. Nada remexido. O lençol dobrado como se nunca tivesse sido usado. Questionou-se a respeito do que teria acontecido, mas no fundo sabia da resposta.  Foi aí que se lembrou: ele tinha partido há uma semana. Chorou copiosamente, abraçada com sua dor e com seus travesseiros. A dor de não aceitar só não era maior do que a dor que sentira no dia de sua partida. Desde então, vivera todos os dias repetindo o último dia que passaram juntos. Na sua cabeça, todos os dias seriam aquele sábado antes da sua partida. Como forma de não esquecer cada detalhe, encenava todos os passos, cuidando para que as lembranças continuassem vivas na sua cabeça, para que a vida que tiveram juntos não se desmanchasse no ar como fumaça.

      Procurou por todos os lados, lá estavam os remédios que a entorpeciam e ajudavam a afastar a aceitação da morte repentina. Tomou dose suficiente para dormir por horas a fio. Depois que acordasse, viveria por mais uma vez aquele sábado, encenando a normalidade, negando para si mesma que estava sozinha e que ele não voltaria mais.

Escrito por Dani Marques

Amo Virginia Woolf.