Gracias a la vida que me ha dado tanto 
Me ha dado la risa y me ha dado el llanto 
Así yo distingo dicha de quebranto 
Los dos materiales que forman mi canto 
Y el canto de ustedes que es el mismo canto 
Y el canto de todos que es mi propio canto[1]
                                                                                                        (…) Um mês depois, ainda não se sabe como isso aconteceu.
Oficialmente, não aconteceu.[2]

 

o gato que pulou da janela do vigésimo andar e se espatifou no chão
a ferida que infeccionou e triplicou de tamanho
o fósforo que acendeu a fogueira do apocalipse
a flor amarela no nosso jardim
o tiro na orelha o sangue no peito a boca sem dentes
as tripas que saltam e não constam no laudo
a terra que cobre a vala comum
a puta largada no canavial
o fígado em estado de putrefação
a lança enfiada no cu da humanidade
sem permissão
a porra de Deus
uma laranja podre
uma barata
um cacto
um espelho quebrado
eu e você
o que restou

 

[1] Violeta Parra, 1966
[2] Trecho retirado da reportagem “ Brutalidade que não aparece nos laudos” do jornalista Caio Barretto Briso, revista PIAUÍ, 15 de março de 2019.

Escrito por marina b. laurentiis

nasceu em São Paulo capital, e viveu sua infância e adolescência no interior do estado. Graduou-se em Ciências Econômicas pela Universidade Estadual de Campinas. Retornou à cidade de São Paulo para cursar Letras na Universidade de São Paulo. A poesia é meu todo.