Fogo prometido

Todos os dias um verme come meu fígado.
Fico sem pernas e braços que façam alguma coisa.
Resta um coração com artéria e veia já engorduradas,
um sangue que chega sem vontade
e sai com pouca disposição.

Todos os dias eu gasto água para lavar as tripas,
amolecer a sujeira que eu mesma produzi.
Gasto horas purgando o estômago
a ver se expulso o que me corrói.

Todos os dias, um frente ao outro,
continuamos o jogo perdido.
Exercito me enxergar no verme
e cada vez descubro uma parte minha que está nele.
Cada vez recupero-me
e a bile desbasta as gorduras que excedem
limpa as sobras do que não serve.

Todos os dias nos vemos no espelho
e já não baixo os olhos.
Pressinto o dia em que serei inteira
a as minhas vísceras serão o próprio fogo.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Venceu o Edital Caramurê de Poesia (2019) com o livro Pulsares. Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.
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