Ventos de maio

Atracou-se comigo até dormir.
Mesmo rígida
fui sua cruz mais branda.

(Adélia Prado, O MENINO JESUS)

Mãe, símbolo de amor e bondade. Era isso que estava escrito no cabeçalho quando foi dado o sinal para desvirar o papel. Na escola, meses de preparação para os grandes temas econômicos, sociais e políticos daquele ano, e de repente estava ali algo um tanto sentimental para minha rebeldia incipiente. Um título e uma sala abafada onde só se ouvia o arrastado ranger dos ventiladores e o gemido das cadeiras em resposta à inquietação de outros tantos candidatos. Uma folha em branco e o tremor nas mãos. Uma gota de suor avolumando-se sobre a testa enquanto os ponteiros aceleravam o ritmo. Não cabia o direito de desistir. A chance era única. Pesavam sobre mim, além de alguns quilos a mais presenteados pela ansiedade de um ano difícil, todas as minhas projeções de futuro. Adjetivei uns substantivos de efeito, para em seguida apagá-los com sofreguidão.

Penso nisso ao tocar o alto relevo de sua capa azul-bebê na véspera do dia das mães. O gosto por cartas me levou a escolhê-lo. Havia lido uma entrevista da autora quando do lançamento. Em um processo inverso ao de Kafka, inclusive no tom da escrita que neste caso é amoroso e acolhedor, a autora publica uma Carta ao Filho, afirmando já no subtítulo que ninguém ensina a ser mãe. Do alto de sua formação psicanalítica lacaniana, mas com a humildade de quem vive os dilemas da maternidade, Betty Milan cria uma personagem que aprende que “cuidar pode ser sinônimo de se separar”. Ao narrar corajosamente histórias do filho, da família e as suas próprias, sem falso moralismo, a mãe-personagem constrói a compreensão da arte de ser mãe dentro da amplidão comportada em um sutil jogo de palavras: “(…) mãe e filho foram Um e precisam se tornar dois, (…)”

O livro seria um presente para uma pessoa especial. Como outras mães que passam por rupturas na relação com o filho, sua alma machucada a impede de se perdoar por não ser o modelo de mãe sacralizado. É para elas que se volta o meu pensamento a cada vez que me invadem as mensagens adocicadas e angelicais da publicidade que impulsiona o comércio por esses dias. Mas, cometi o delito de ler a primeira página e descobrir, depois de devorar as demais, que o havia comprado para mim. Talvez para encontrar nos dramas da personagem a justificativa para meu sentimento de culpa. Talvez para entender o processo que intuitivamente começamos a viver quando eles já não precisam mais de nós. Como a protagonista de A velha senhora indigna de Bertolt Brecht, citada pela narradora de Betty, percebemos que ainda há tempo para uma vida sem o peso das obrigações e sem que isso signifique redução da capacidade de continuar a amá-los incondicionalmente.

Sobre a sala abafada? Sim, consegui ocupar naquele ano uma das concorridas vagas na universidade federal. Depois de respirar fundo e aquietar o coração, lembrei de uma redação que tinha me rendido elogios da professora de português em outro maio. Dispensei os adjetivos piegas e costurei-a com as poucas ideias que me vinham embaladas pelo som do ventilador. Nela havia uma mãe ocupada com a multiplicidade de sua lida diária, não se dando conta dos pequenos detalhes que os olhos atentos de sua prole buscavam no vai e vem da sua saia. Não havia tempo para palavras. Não havia lugar para a culpa. No entanto, no texto a cruz era branda para manter coerência com o título e se diluía no reconhecimento de que sua arte era tecida com as ferramentas de que dispunha. Uma iniciação pelo processo reflexivo da escrita, ainda que sem a consciência de Freud ou Lacan. Um rito de passagem conduzido pelo amor e uma certa dose de generosidade.

Escrito por Sergia A. Martins de Oliveira Alves

Aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, memória e cultura