Você diz que a partir de certo ponto não há mais retorno. Pergunto-me: onde? Onde é o ponto em que o caminho se torna sem volta? Olho sua foto no smartphone. Não me olha. O olhar baixo, concentrado no que fazia quando a imagem foi capturada. Retenho-me. Há mais cérebro do que coração no meu corpo. Do lado de cá me pergunto se terei coragem de avançar além do sem retorno. Minha cabeça diz não. Meu corpo queria. Meu sentir quer. Quer? Ainda não tracei as rotas desse encontro, meticulosa que sou. Ainda não fui ao ponto. Nenhum ponto. Sequer vírgula. Fiquei do lado vazio, onde ausência não é falta de presença. Você marca ponto no meu dia, mesmo distante.

A lembrança do seu olhar me diz siga, acho. Duvido das indicações. Quero um mapa com todas as coordenadas, longitude e latitude do seu querer. Talvez ainda assim hesite. Porque medo é controle do sofrimento que já sei, já vivi e guardei. Onde é o ponto em que não retorno mais pra cabeça? Onde me perco dos medos?

Deixei minhas armas ao pé da cordilheira, com a Deusa, porque já lutei contra ti e me perdi. Hoje não luto mais. Só comigo, insistentemente, sem vitória ou derrota. Invulnerável. Parada. Retida por minhas próprias forças, entre ir e ficar. Entre o que penso que sou e o que leio em ti. Milhões de conexões, sinapses nervosas no caminho certo, onde erro não tem lugar. Meus esquadros estão partidos. Onde as retas? As curvas me bailam e tenho medo de cair do giro. Vulnerabilidade. Como esse traço que escorreu da letra e virou risco. O lápis risca o risco sobre o papel e eu vejo. Não dissimulo pra mim mesma.

O risco. Só dá pra saber se acontecer, invade a canção no rádio. Grifa meus ouvidos cegos. Tanto amor guardado tanto tempo. Eu queria as coordenadas do seu peito. O meu já sei perdido, amarelo de medo. Ninguém joga as chaves ou as tranças de Rapunzel para eu escalar a torre e libertar-me. Por que fui tão alto, tão fundo no abismo medonho onde amar é perigoso? As chaves sou eu. Viver é um risco. Não há garantias. Repito, repito, repito. Um mantra. Abracadabra. Somente eu posso dar garantias à vida.

Rasuro as grades da minha prisão, sem esquadros, sem retas. O salto pode ser queda ou voo. A partir de certo ponto não há mais retorno. Só se sabe depois. Depois de um minuto ou dez, talvez só amanhã, eu saberei. Entrego-me no salto para fora, desde dentro de mim, em direção a você. Minhas palavras tocarão a tela do seu smartphone no instante já. Eu ficarei quieta, tremendo de medo de não voar, sonhando com o céu.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.