Sentia agora que ultrapassara todos os limites; que vinha para si uma sensação: a sensação da verdade. Ele contava seus trinta e três anos e mesmo sem ser tocado pela velhice poderia dizer que conhecia da humanidade o suficiente, e dos homens o bastante, a ponto de os limites estarem frouxos e maleáveis, e era isso que sabia.

Olhava de cima da ribanceira: casas ao longe, montes de pedra; o sol escaldante; via uma serra seca e fulgurante, onde animais pastavam; homens e mulheres que fugiam na cata de uma sombra, saindo dali, saindo de perto da tortura de uma lança pontiaguda que feria de morte quem ousasse chorar, e, talvez, pela primeira vez na vida teve medo.

Agora estava na balança entre medo e verdade, mas podia se apoiar, e como mãe que carrega suas crias e levanta suas forças a dar-lhes o que comer, ele também – como pai – podia carregar-se nas mãos feridas e suadas. Olhou-as. Finas. Pele finíssima, sem veias e a palma sem sulcos onde traçasse aquela vida determinada: foi tudo diferente.

Não nascera no deserto, na manjedoura, onde estava escrito. Ali não havia sol ou estrela apontando o caminho; não lembra – já que pequeno demais – se lhe trouxeram artigos preciosos e sublimes: algo que agradasse aos pais, algo que perfumasse aquele lugar de cimento e cal; ali não houve cantigas, não houve incenso, não houve louvações, nem reis magos, mas uma torrente inumerável de tormentos e lamúria.

A mãe desde o início chorava. Via os anos passarem e ela odiava tudo que eles lhe traziam. O pai foi encontrar os ensinamentos da vida, a casa pequena demais para tantos herdeiros sem cor e água. Já ele, pequeno, deixou-se levar pela rua, pelos molequinhos da vizinhança, pelos desejos de menino homem.

Fora tudo errado, e no limiar, na sensação em que se encontrava, conversava: “Senhor, tem um pouco de intento. Diz a eles que estão errados; diz a eles que sou inocente e vítima”, dizia sob a luz forte desse sol que vemos daqui. Nada respondia. Tu podes me ouvir? E os homens e mulheres que passavam não o viam, não o percebiam. Dizia: “Senhor, sou filho também! Sou da vida o que ela me quis. Então por que somos assim?”, e era o que vinha em sua língua e sentia agora o gosto de sangue e poeira. Estava com vontade de tossir. Estava com sede. Do alto, olhava os próprios pés negros sem reconhecer por onde deixara as pegadas, por onde andara, se fora mesmo na vida.

Passou uma criança. Ela beirou a calçada para não derrubar nenhuma barraca da festa que os Romanos montavam em dias assim de quaresma. Carregava uma carta nas mãos – uma carta de baralho. Ele não ouvira seus passos diante do murmúrio que os feirantes faziam naquela algazarra de pessoas sedentas na vida, puxando bandeirolas para a torre da igrejinha.

“Oi, moço?”, falou o pequeno, numa voz de dentro. Parados defronte a igreja, o homem assim viu um rosto fino e branco quase dourado de sol, que olhava. Os olhos grandes e azuis estavam ansiosos. Pensou em responder. Não. “Oi, moço, o senhor está bem?”, tornara a perguntar. Ele, na sensação da verdade, evitou-lhe as retinas. Seria Ele? E até procurou uma ferida de lança bem abaixo do mamilo direito naquela titela branca e magra. Pensou em pedir ajuda. “O Senhor não merece”, pensou de imediato, fechando os olhos, até saber que o pequenino entrara porta adentro.

Passados dois minutos, desceu o morro. Tinha medo, ainda, mas a sensação da verdade chegava como uma rajada de vento quente nas narinas. Passou por meninos de rua que sorriam aos dentes negros; passou pelas casas de pau e amontoadas de animais e gente; uma feira clandestina bem ao nariz do xerife das drogas e do padre; o cheiro de esgoto.

Na avenida, na sombra imposta por um viaduto e pela fortaleza de barracos logo atrás de si, sacou secretamente o revólver, quando viu do casal a primeira vítima com bolsa a tira colo. Persignou-se, pediu perdão, e sabia que Jesus estava com ele.

Escrito por Diego Noleto

Diego Noleto (Teresina-PI, ..85) é jornalista, escritor e professor. Formou-se em Jornalismo e Literatura Brasileira e Portuguesa. É especialista em Literatura e Estudos Culturais. Foi repórter de cultura e começou a escrever contos em 2015. Já publicou nas revistas Desassossego (USP-SP), Desenredos, Revestrés (revista de cultura), o Gozo e Benfazeja. Participou da antologia “Distrópicos – Contos Fantásticos de um Brasil Imaginado” (Carreira Literária, 2018). Escreve para o site Geleia Total, como Lazarus Silvestre.