Voltava. Fazia caminho inverso. O direito do avesso de viver. Quanto tempo? De verdade não sabia, umas centenas, talvez bem mais, mas, para agora, 96 dava conta de algum tempo no existir. Retorno. Casa de matéria impalpável.

Partiu no dia que sabia e foi sem abalos nem alaridos. Serena. Sabedoria de gente vivida no além do tempo local. Como sabia? Resposta precisa não tinha, convergência de tudo alinhado em pulsar silencioso dentro dela. Ventos, rezas, folhas, óleos, unguentos, luas, marés. Um caldeirão no ventre, onde tudo se movia e mexia em saberes atípicos. No dentro dela um tronco de jequitibá robusto. Firmeza e altivez.

Noventa e seis tempos contados por agora. Frondosa árvore de noventa e seis anos. Sombra imponente de caminhos árduos e galhos fortes de lutas várias. Quantos frutos? Sabia não, contar não dava. A bem da verdade deixou mais que as frutas do pé. Tataranetos, bisnetos, netos e filhos. Cada palavra sibilante em cura, cada cabeça brotada em vida, cada conselho contado em amor era fruto vário, em vidas outras, de gentes e gentes que buscavam abrigo da dor de viver.

Dias antes do Dia, avisou, no silêncio das íris despertas, que logo cerraria o sol dos olhos. Sinal dado. Tempo marcado até o fim, para continuar. Na hora exata ela foi. Fazia-se honras de agradecimentos e préstimos em canção de água, terra, ar e fogo. Juremar de vida-morte, existência. Estágio novo, alto voo espiralando para a via láctea, rastro de estrela. Brilho.

À superfície da incompreensão, lamento e dor, aperto no dentro. Até. Calma de ser encantado pela cor da memória acesa na ausência. Matizes de vida guardados na pele, nos cheiros e escutas de vivências compartidas. A palavra abençoada pela avó, árvore mãe: Bênção: o rosto vivaz de ensinamentos; a fala firme de sabedorias. Tudo guardado em todos os frutos que estão até o Dia. Convivência, ciência de ser.

Luz de estrela no alto do espaço. Avó. Brilho de olho de gente mirando passado e presente. Encanto. Pó de pessoa, poeira de cosmos. Pirlimpimpim.

Escrito por Lílian Almeida

Baiana de Salvador (Brasil), Lílian Almeida é professora na Universidade do Estado da Bahia. Tem contos e poemas publicados em revistas literárias digitais e outros espaços da internet, além de participar de antologias impressas. Publicou o livro Todas as cartas de amor (Editora Quarteto, 2014). Mantém o blog Cartas, fotografias e outros guardados onde publica contos, crônicas e poemas seus e de outros autores.