Lagartixa emplumada
 
Capinei os pelos dos corpo,
depois de uns dois meses.
Só o capô foi salvo,
ficou apenas fingindo civilidade,
aparadinho.
 
Consulto Ana C. antes de dormir:
“Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir com a mesma leveza com que os ares me beijavam".
 
 
Relógio dourado
 
Mãos se embaralham entre
leitura e copo,
a cerveja derrama entre
as pernas;
 
Suspendo trabalho e olhar
à mesa da frente:
 
garrafas, pratos, guardanapos
desaparecem delicadamente da superfície
 
camisa cor-de-vinho
bermuda cor-de-vinho
boné cor-de-vinho...
 
Ô, moço, finge que não é com ele,
esvazia a mesa, volta ao balcão.
 
Resistirá ao retrato?

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, professora, mestre em estudos literários, artista visual, curadora. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo.