Alguns fragmentos poéticos por Fernanda Fatureto

Alguns fragmentos poéticos

Por Fernanda Fatureto

 

Escrever é sempre parte de um movimento maior, à deriva de imagens e palavras que nos acompanham como amuleto e espera – partida para um lugar remoto do inconsciente onde reina o sonho e a metáfora (local sagrado e indecifrável) que só pode ser lido em seu contexto do poema quando este deixa o imaginário de quem escreve para a página. Cada escritor tem sua partitura particular, transcrever esse local – materializa-lo – é tarefa de cada um que escreve. Como num ensaio de queda e redenção. O poema como resistência de quem o pensa e sente.

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Anotar o imprevisto. Deixar o fluxo vir. Reconhecer as palavras difíceis, trazer a escrita para o papel. O poema como metáfora do sonho, do insondável. Perceber que a caligrafia hesita, falha na acepção do novo, na busca pelo que há de mais oculto dentro de si. Sondar o improvável até fazer nascer o que há para nascer como o real de um duplo artifício.

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Tenho feito muitos silêncios. No plural para averiguar as rachaduras, as reticências, os espaços vazios como no poema de Ana Cristina Cesar. O silêncio permite suspender o momento, refazer a trajetória do presente sem que se interfira em sua nomenclatura. Tenho feito muito silêncio em dias de sol e frio para checar se ainda o real aguenta o chamado do imaginário e da crença naquilo que cresce por dentro sem atalhos e faz nascer o poema.

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Queria entender o movimento de ir e vir, aquele segundo em que a correnteza corre em direção ao rio, o movimento das aves migratórias, a pulsão do primeiro beijo. Queria entender como nasce o amor e o ódio, como crescem as disputas e as rivalidades. Queria compreender o significado do poema quando surge feito sonho e desliza seus versos na página ainda virgem e branca da manhã.

Photo: Kiki de Montparnasse,1930. Man Ray

 

 

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