obs : um poema perdido, de 2014, sobre loucos ou quase.

 

lima que não era louco
via nos internos a soberba da loucura
coube-lhe o hospício qual casa de veraneio
repousava como podia em meio ao nefasto
raiava querendo um assunto
deslisava entre os disparates do interlocutor alienado
perguntou-me: não é o amor também fator da loucura?
A riqueza, os títulos, não o são?
quis dizer que sim, precisamente
ele compreendera, existia o mistério.

assim me lembro de adelina, louca posterior ao lima
que antes de ser louca apaixonou-se, era correspondida
queria casar-se mas sua mãe a impediu
adelina foi fechando-se em si, no amor que já não,
a boca amarga, o medo dos caninos do gato
certo dia num acesso estrangulou o animal
foi internada por isso, e esqueceram-se dela
passaram-se anos e no hospício construiu-se um ateliê
adelina esculpia mães terríveis
onde a marca do amor e da castração
até que lhe brotaram grandes mães
frondosas, dóceis

lima que não era louco
via nos internos a marca do amor
doentio porque tratava-se de loucos
mas sendo o que os afastava de realidade
em simultâneo era o que os trazia
perto do demasiado humano