Aninha fez os quinze. Era dia de comemorar.

Cedo do dia e todas já bem animadas. Há tempos o sol não batia assim nas caspas. Umas ainda de pijama já passavam a água com a piaçava no chão. Dona Raimunda, como presente, ligou para Chica. Trabalho delicado. “Me tire o buço, sovaco e penugem da virilha, mas sem machucar a pelezinha da menina”. Vai ficar limpa.

Drica, Jennifer e Michelle saíram com a menina quase no colo. Bazar do seu Antônio, ali na Paissandu. Sainha não, Xadrez não, de rosa nem pensar – já não é mais criança. Calçou uma couraça feia de dá dó.  Ela viu um vestidinho azul, parecido com o da boneca Susi, e sorriu leve. Levou um látex cinza apertado e boina. Vai parecer gringa. Os pé rapados na rua já olhando sua bundinha seca. As tias davam abraços, palmas e vivas com olhadas maliciosas.

De volta em casa, presentes jogados à mesa. A mulherada conferindo peça por peça, com inveja; inveja do passado. Os braços se digladiavam. No jarrinho um buquê da floricultura, na cesta chocolates de caixa da Nestlé e no cabide o lindo vestido de baile. Três pretendentes.

“Eita menina de sorte”.

“Doutor mandou foi logo esse vestido”, a velha falou se gabando. Era sua caçula, queria um bom partido. As outras sorriam enamoradas.

Desde os treze, pretendida. Dr. Honório já mantinha despesas: escolinha do bairro, mesadinha e as bonecas. Em troca dava umas chupadas nos peitinhos e às vezes um dedinho no esfíncter, mas nunca na pérola de concha imaculada. Esperou, paciência é uma virtude.

Tita, a feia, a indigesta, cuida das unhinhas? Aninha, hoje, só come. Não lava louça nem cansa o corpo – tem que aguentar o trampo. Pega o quite: esmalte claro, escuro, vermelho? Aninha pintava o mindinho e já via a tardinha chegando, aquele marasmo das cinco. O sol se pondo, levando o último suspiro do dia, condizente com sua infância e pureza.

Na hora marcada a buzina forte, sol baixo atrás do Corolla pretão. Dona Raimunda manda chamar. As meninas festejam a vida, correm de um lado para outro, como baratas sob mesas. Aninha apressada, erra o rabo de cavalo – torto à esquerda –, um beijinho no rosto de cada boneca em despedida. Na bolsa, esconde uma Fofolete.

Na porta da rua toma benção à mãe e às irmãs. Sai cambaleando nos saltos, tropeçando as pernas fracas e finas de caneta. Tita, a feia, estoura a rolha da Sidra Cereser.

Escrito por Diego Noleto

Diego Noleto (Teresina-PI, ..85) é jornalista, escritor e professor. Formou-se em Jornalismo e Literatura Brasileira e Portuguesa. É especialista em Literatura e Estudos Culturais. Foi repórter de cultura e começou a escrever contos em 2015. Já publicou nas revistas Desassossego (USP-SP), Desenredos, Revestrés (revista de cultura), o Gozo e Benfazeja. Participou da antologia “Distrópicos – Contos Fantásticos de um Brasil Imaginado” (Carreira Literária, 2018). Escreve para o site Geleia Total, como Lazarus Silvestre.