DA TERRA E DO MAR

Aos
pescadores de Ali Hoca

porque julgou o mar
gerar a vida
e sobre a fertilidade da terra
vê-la edificada
à distância
não a percebe mutilada.

do ventre agonizante
nega-se a acolher as sobras

e em pequeno frasco
arrastado pelas ondas
sua voz propaga.

porque julga o mar
gerar vida, em nova escala.

(set/2015)

ACALANTO DE PRIMAVERA

Aos
anjos de Khan Sheikhoun

Velo teu sono, ó lua! Clamo por teu nome, ó adorado!

quem vos trouxe a mim em dias de vida suspensa? abrigo-vos dos roncos que inquietam a inocência. amparo-vos na certeza das paredes intactas, ou do sangue que não se esvai.

sopra a brisa e juntos respiramos o medo, disfarçado de alívio. inspiramos o silêncio que sufoca o ar, exalando a noite sobre a manhã de abril.

teu corpo balança em minhas mãos, ó adorado! no teu corpo murcha a primavera, ó lua!
sem flores ou preces orvalhadas de adeus.

em ato reverso retomo o inverno sob as pupilas contraídas do mundo.

(abr/2017)

Escrito por Sergia A. Martins de Oliveira Alves

Aprendiz de letras e espantos. Mestra em Letras/Literatura, memória e cultura