Cookie Mueller – Pink Flamingos I

Cookie Mueller (1949 – 1989) foi uma atriz, crítica de arte, jornalista e escritora norte americana. Graças às inúmeras fotografias feitas por Nan Goldin e suas personagens nos filmes de John Waters, é, ainda hoje, um dos ícones da contra-cultura do seu país. Teve seis livros publicados: How to Get Rid of Pimples, Fan Mail, Frank Letters, and Crank Calls, Putti’s Pudding, Walking Through Clear Water in a Pool Painted Black, Garden of Ashes e Ask Dr. Mueller: The Writings of Cookie Mueller. Metade deles, ainda em vida.

Duas grandes características da sua escrita são o humor e a escatologia, situações nas  quais a própria Cookie acabava se envolvendo, ao lançar-se ao mundo de modo um tanto desenfreado, atitude comum a juventude da sua época e cena cultural cuja imagem ajudava a dar rosto.

Foi mãe de Max Mueller. Apesar de querer batizá-lo como Noodle (nome que acabou lhe sendo dado em Pink Flamingos), foi proibida pelo cartório. Morreu de aids aos 40 anos.

Publicarei aqui, em três partes, a tradução que estou fazendo de um capítulo do livro Walking Through Clear Water in a Pool Painted Black. Uma biografia bastante próxima de algumas escritoras beats, tanto em conteúdo, como no uso da linguagem, que faz emergir uma série de questões – um pouco de escanteio na nossa História da Literatura – ainda hoje bastante relevantes acerca de certa juventude aventureira e com parcos recursos, cheia de histórias, como as caroneiras, ou xs artistas da pós-pornografia.

Pink Flamingos

“Qual a pior coisa que pode me acontecer quando eu comer a bosta do cachorro?” Divine nos perguntou, enquanto estávamos sentados ao redor do set, esperando John Waters voltar de algumas cenas externas. Van Smith, o maquiador, pintava o rosto de Divine enquanto isso. David Lockhary retocava o seu cabelo azul e bebia café; Mink, colocando suas lentes de contato; Bonnie lia o jornal The Baltimore Sun; eu tentava memorizar as minha falas.

Não havia sombra de dúvidas que Divine comeria a merda do cão. Ele era um profissional. Isso estava no script, então ele faria.

“Bem, uma hora descobriremos o que acontece”, eu disse.

A cena era secreta. Apenas algumas pessoas envolvidas em Pink Flamingos sabiam sobre o comer-merda-sorrindo no final do filme. John queria deixar baixo. Talvez ele tivesse receio que outro diretor o ultrapassasse, roubando dele o prêmio de precursor da merda. Qualquer palavra a mais agora poderia destruir a surpresa do espectador no cinema.

“Vamos falar com um médico”, Van disse, pausando o delineador no meio do caminho.

“Eu farei isso se isso não me matar”, Divine disse gargalhando.

“Imagina que é chocolate”, Bonnie sugeriu.

Existe muita gente corajosa no mundo: algumas delas escalam o Everest, outras trabalham em minas de carvão, ou viram astronautas, também há as que mergulham em busca de pérolas. Algumas dessas pessoas são os bravos artistas que trabalham com John Waters.

Nós não achávamos que ele estava pedindo demais. Nem que era doido. Só um pouco obcecado.

“Liguem para o médico agora”, disse Mink.

“Liguem para um hospital. Liguem para o John Hopkins!” Eu disse e lhe dei o telefone.

“Por que se preocupam tanto? Não há motivo de alarde, deixem disso”, disse David.

“Discando”, disse Mink.

“Liga para a pediatria. Diga que seu filho comeu a merda do cachorro e veja o que vão dizer”, Van sugeriu.

“Meu filho comeu cocô de cachorro acidentalmente”, disse Divine, “O que pode acontecer com ele?”

“O que ele disse?” Bonnie perguntou.

“Shhhh…” “E depois?” Divine perguntou ao telefone. “Hmmmmhu, hmmmmhu, ok então. Obrigado” e desligou.

“Então?” Perguntou David.

“Ele não parecia muito alarmado”, disse Divine. “Acredito que seja uma questão rotineira para um médico. Ele disse pra eu tomar cuidado com os vermes brancos.”

“Isso não parece muito perigoso”, disse Divine.

“De todo modo você não precisa engolir”, Van disse.

“Ele recomendou examinar o cachorro, levá-lo num veterinário”, Divine disse.

“John está fazendo isso”, eu respondi.

“Qual é o tipo do cachorro?” Mink perguntou.

“Um mini poodle”, Divine respondeu.

Foi sugerido a John fazer a cena em dois takes, primeiro o cão faz a sua imundície e pode cortar. Trocamos a merda real por merda falsa. Divine come e pode cortar. Mas John sabia, todos sabíamos que a audiência não cairia nessa.

“Não. NAO. Todo mundo vai saber que trocamos a merda real por fake news. Divine vai comer essa coisa ainda quente no asfalto”, John havia dito há alguns dias.

Isso é o show biz. Divine não falharia, além de não ser a única. Mink Stole faria uma grande cena para a qual foi chamada por seus longos cabelos vermelhos, para que pegassem fogo. O diálogo seria o seguinte: “Mentirosa, mentirosa, seu cabelo está em brasa!” Ela não parecia nenhum pouco apreensiva.

“Eu vou fazer. Tem extintores aqui”.

“Você pode usar uma peruca”, eu sugeri.

“Alguém comentou sobre essa possibilidade com o John. Não. O público quer a verdade.” Mink disse.

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, pesquisadora, artista visual, auxiliar de cozinha. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo.
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