Cookie Mueller – Pink Flamingos II (+18)

John mudou de ideia no dia em que gravaria a cena do cabelo em brasa, aquilo seria mais perigoso que qualquer coisa. Testaram um pedaço dos fios de Mink, eles esfumaçaram, estalaram e tudo cheirou muito mal. Não havia efeito dramático, o cabelo não arderia em chamas. John ficou um pouco desapontado, mas logo pensou em outra coisa. A maioria das vezes que ele vinha com essas ideias,  estava apenas nos testando; só a gente o levava a sério, éramos suas cobaias. Artistas sabem que cenas como essas fazem estrelas.

“Você já tinha pensado em fazer uma cena onde é abusada por galinhas de verdade?” Divine me perguntou.

“Abusada por galinhas de verdade?” Mink também perguntou.

“Como?” Disse Bonnie.

“No script diz que o Crackers corta a cabeça de uma galinha e esfrega o pescoço em mim” Eu disse.

“Ah, isso parece fácil.” Concluiu Divine.

“Sim, fácil comparado ao que você tem que fazer”. Eu disse a Divine.

“Garras de galinha são realmente desagradáveis”. David disse. “Mesmo sem suas cabeças”

“Arranhões de pássaros podem ser perigosos”. Comentou Van.

Eu pensei n’Os Pássaros, do Hitchcock, mas aqueles eram gaivotas e eu sei o quão forte pode ser uma gaivota. Comparadas a elas, galinhas são moleza.

“Não tenho medo de algumas garrinhas”. Eu disse.

“Mas acho que não consigo ver suas cabeças sendo cortadas fora”.

“Qual é? Galinhas não sabem quando estão morrendo. Elas não são tão espertas assim”. Disse David.

Falamos sobre uma série de outras cenas.

“O trailer inteiro vai pegar fogo no jardim. Isso não pode fugir do controle?”. Perguntei.

“John estará lá com um caminhão de bombeiros”. Van respondeu.

“Linda Olgeirson vai mesmo ser inseminada na frente das câmeras? No fundo do poço?” Mink perguntou.

“Ela terá um dublê”. Bonnie disse.

“´E um close de castor. Ninguém vai saber que não é ela. Linda não quer expor a xota para a audiência. Eu também não faria isso.” Eu disse.

“Eu também não”. Disse Mink.

Nós podíamos comer merda, pegar fogo, foder galinhas, mas não podíamos fazer close de tcheca. Tinha de haver um limite em algum lugar.

“Eu vou ter que mostrar o pinto”. David disse.

“Mas você vai ter um pescoço de peru amarrado nele, isso não conta”. Mink disse.

“Elizabeth vai mostrar as tetas e a neca, David. Do que você está reclamando?” Divine disse e eu concordei.

Durante as gravações, nós íamos dormir todas as noites ansiosos pelas cenas do dia seguinte. Alguns atores talvez digam que fazer filmes é algo bem chato. Em grandes produções, os artistas vão para seus trailers privados aguardar a hora da filmagem. Nesse set foi diferente. Ficávamos no mesmo quarto entre as tomadas, ocupadas com o figurino, lembrando nossas falas, brincando com as cenas roubadas pelos figurantes, retocando a maquiagem, prontos para emocionar. Não havia nenhum trailer individual ao redor.

Produzir filmes com pouco investimento é osso, mas é divertido, mais divertido que as super produções. Se você é um ator, não há recompensa maior, exceto pelo pagamento miserável. Em filmes pequenos você conhece o elenco inteiro em um dia, todas essas pessoas são muito criativas por causa do orçamento limitado. A necessidade é a mãe da invenção, essa é a verdade. Nisso John é um mestre, sua imaginação quebra tudo.

Antes de começarmos a gravar Pink Flamingos, eu estava em Provincetown com Max em seus dois meses de vida e Tom O’Connor, o padrasto do momento. Max e eu ficaríamos no subúrbio de Baltimore, com minha mãe, durante as filmagens, mas as coisas não correriam nada bem morando na casa dos meus pais.

Mamãe sabia que tinha um filme acontecendo. Mas eu não disse que Max era uma das estrelas, atuando como o recém-nascido comprado por um casal de lésbicas, e eu, obviamente, não disse nada sobre as galinhas.

“Deixa eu ler o script”. Ela dizia o tempo todo.

“Ah…então…estou sem ele aqui. Esqueci no set”.

“Então me conta sobre ele. Sobre o teu papel”.

“Não é nada demais. São duas famílias rivais. Eu faço a personagem intermediária, a espiã”.

“Qual a rivalidade? São famílias de criminosos?”

“Não exatamente. Algo do tipo”.

Como nesse mundo eu descreveria o filme para minha mãe?

Extraído do livro Walking Through Clear Water In a Pool Painted Black – Traduzido por mim.

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Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, pesquisadora, artista visual, auxiliar de cozinha. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo.
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