Cookie Mueller – Pink Flamingos III

Essa é a terceira e última parte do capítulo “Pink Flamingoes”, do livro “Walking Through Clear Water In a Pool Painted Black””, da atriz, escritora, jornalista e crítica de arte Cookie Mueller, uma das estrelas da Dreamland, produtora de John Waters. Esse trecho de sua obra descortina os bastidores de um dos filmes mais famosos do diretor, foi divertidíssimo traduzi-lo. É uma história tão potente, a dos dreamlanders, que algumas expressões usadas nos diálogos só puderam ser traduzidas, com a carga significativa que merecem, a partir da letra de estrelas da música travesti brasileira atual. Não sei como poderia movimentar tão bem o termo close-up crotch (presente na parte II da tradução), se a canção Tcheca, da Danny Bond, não existisse. É uma honra poder fazer isso, participar, me meter nessa história. Aí vai:

Alguns dias depois, quando John veio buscar Max e eu para as filmagens do dia, minha mãe nos interrompeu no caminho.

“Aonde você pensa que vai?” Ela interrogou.

“Estou indo para o set”, disse.

“AH, VOCÊ NÃO VAI, NÃO”, ela gritou, “EU ENCONTREI AQUELE ROTEIRO E LI E VOCÊ NÃO VAI CHEGAR NEM PERTO DESSE SET!”

Sentei na cadeira vitoriana por alguns segundos. “Mãe, não é isso que você está pensando. Esse filme vai ser engraçado. Não é pornografia. É um outro tipo de filme… é arte… é…” Estava perdida em busca da melhor palavra, o rótulo que lhe legitimaria o filme. Como ela poderia compreender?

“ARTE?!?!?!?!? ARTE?!?!?!?! ISSO NÃO É ARTE!!” Ela engasgou e atirou o roteiro em mim.

“Mãe, peraí. Senta,” eu disse, mas não havia como acalmá-la. Era bem temperamental aquela mulher.

“E VOCÊ VAI EXPOR O SEU POBRE BEBEZINHO A TODA ESSA FALTA DE NOÇÃO?!?!?! ESSE LIXO?!?!?!?! ISSO É O RABISCO DO PRÓPRIO DEMÔNIO… ESSE ROTEIRO, ESSE ROTEIRO DE ARTE! HA!HA!HA! ARTE!! Ela estava realmente selvagem nesse momento.

Tudo que pude fazer foi começar a arrumar a bagagem. Rápido.

Coloquei as roupas do Max na sua mochilinha, agarrei o pacote de fraldas, pus as roupas na mala e Max nos meus braços.

“AONDE VOCÊ PENSA QUE VAI?!?!?! PONHA ESSA CRIANÇA NO CHÃO!”

Do lado de fora, na avenida, John, inocentemente, começou a buzinar seu carro. Eu encolhi os ombros.

“ESSE MANÍACO ESTÁ AÍ FORA?!?!?!?! EU VOU DAR A ELE UM PEDAÇO DA MINHA CABEÇA”, ela gritou e voou para a porta da frente, me seguindo. Eu pulei para dentro do carro com Max e minhas bolsas antes que ela nos alcançasse.

“Pisa fundo, John”, eu disse a ele. “Minha mãe vai ficar na nossa cola.”

Ele seguiu pela estrada. Mamãe ficou parada no gramado balançando os braços.

“VOCÊ É O BELZEBU”, ela gritou enquanto John cantava pneu pelas ruas.

“Ela leu o roteiro ou algo parecido?” John perguntou. Ele parecia abatido.

“Com certeza leu”, eu disse, olhando para trás na direção dela. Ela continuava gritando no gramado da frente.

“Acho que ela não deve ter adorado”, ele disse e gargalhou.

“Não exatamente”.

“Você não pode voltar lá. Pode ficar comigo.” John disse.

“Sim. Eu não posso voltar lá. Você ouviu ela? Ela te chamou de Belzebu”.

“Quem é Belzebu, aliás?” John perguntou.

“Uma das facetas do demônio”, eu disse.

“É sério isso?”

“Ela cresceu em uma comunidade batista do extremo sul. Drama extremo. É uma atriz”, eu disse a ele.

“Talvez eu devesse dar a ela um papel no filme”, ele riu.

“Eu me sinto um pouco mal por ter feito as malas e saído tão depressa. Tem certeza que está tudo bem ficarmos um tempo contigo? Eu sei que você está sob bastante pressão por causa do filme agora, mas o Max não costuma chorar muito. Eu posso colocá-lo numa gaveta de armário. Dr. Spock disse para colocar os infantes em gavetas enquanto estiverem viajando.

John começou a gargalhar, “você está brincando”.

“Você não pensou em fechar a gaveta ou algo do tipo?”, eu disse.

Ele só continuou a rir.

Fomos para a fazenda onde estava sendo preparada a cena do galinheiro. Tudo correu bem, mas tivemos que regravar quatro vezes, as galinhas não foram muito gentis. Danny (Crackers) teve que matar oito ou nove delas; eu não o vi cortando as cabeças.

David disse que mesmo descabeçadas elas eram um bando de aves desagradavelmente vivas, agonizando e chutando com toda a força. Eu fiquei toda arranhada por suas garrinhas afiadas. Realmente me machuquei. Subestimei aquelas galinhas, mesmo quando senti pena delas.

Na outra cena, Max foi ótimo como o pequeno Noodles. Humilhou até os mais valentões.

No entardecer, quando acabamos os trabalhos do dia, com o sol se pondo no horizonte de árvores desfolhadas pelo inverno, nós cozinhamos, fizemos uma grande refeição para toda a produção. Aquelas galinhas, das quais eu senti tanta dó no passado, certamente estavam deliciosas.

Mark Baker & Cookie, NYC premiere of Female Trouble, 1974, c. George Fitzgerald

Escrito por Priscila Lira

Nasceu em Pitinga (Amazonas, 1991). É escritora, pesquisadora, artista visual, auxiliar de cozinha. Publicou Manual de Feitiçaria e O Barulho do Mormaço, ambos disponíveis no Calaméo, é integrante do Escritoras Suicidas, tem outros textos na Germina Literatura, no Mallarmargens, na Revista Diversos afins e no Jornal Relevo.
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